Delegado da Dise diz que o tráfico de drogas é o câncer da sociedade


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O delegado Djalma Donizete Batista está à frente de campanha de combate ao consumo e tráfico de drogas realizada em Franca
O delegado Djalma Donizete Batista está à frente de campanha de combate ao consumo e tráfico de drogas realizada em Franca

Há 20 anos, a Delegacia de Investigação sobre Entorpecentes de Franca deveria ter 33 policiais para combater de uma maneira adequada o tráfico de drogas na cidade. Duas décadas se passaram, o número de vendedores e consumidores de drogas explodiu sem que os investimentos na polícia crescessem na mesma proporção. Na contramão do que deveria ocorrer, a Dise conta apenas com 19 profissionais em seus quadros, sendo 12 investigadores, quatro escrivães, uma psicóloga e dois delegados.

É com este reduzido efetivo que a delegacia especializada enfrenta o crime organizado e tem a dura missão de conter o tráfico numa cidade que beira os 350 mil habitantes. No ano passado, a Dise autuou 651 traficantes. Na média, as prisões feitas pela sua equipe ou pela Polícia Militar resultaram em dois flagrantes por dia.

O número quase é suficiente para encher o CDP (Centro de Detenção Provisória) de Franca, que tem capacidade para 768 detentos. Entre os traficantes recolhidos, 499 eram adultos, enquanto os adolescentes responderam por 152 prisões. Nos seis primeiros meses deste ano, a quantidade de traficantes mandados para a cadeia segue na mesma proporção: 344, sendo 252 maiores de idade e 92 com menos de 18 anos.

Não por acaso, 62,3% dos presos que estão no CDP atualmente têm ligação direta com o tráfico de drogas. O restante, em sua maioria, furtou ou roubou para comprar entorpecente. Ciente da gravidade do problema que afeta toda a sociedade, a Dise lançou uma campanha para tentar despertar na população a necessidade de prevenir o uso e combater as drogas. Uma série de atividades foi realizada na semana passada por conta do Dia Internacional do Combate às Drogas, 26 de Junho. A iniciativa é comandada por Djalma Donizete Batista.

Aos 50 anos de idade, sendo 20 deles como delegado de polícia, o responsável pela Dise recebeu o Comércio e falou do desafio de liderar uma pequena equipe na guerra contra o tráfico e da importância do envolvimento da sociedade nesta cruzada contra as drogas.

Comércio da Franca - Como o senhor define a missão da Dise em tentar combater uma modalidade de crime que não para de crescer?
Djalma Batista -
Nossos policiais são verdadeiros guerreiros. Não esmorecem de forma alguma. Estão dia e noite no trabalho incessante contra estes traficantes, sobretudo, porque todos nós somos enraizados em Franca. Queremos que a cidade esteja livre da violência para que possamos ter um mundo melhor.

Comércio - Por que o consumo de drogas e o envolvimento com o tráfico estão cada vez maiores?
Djalma -
Primeiramente, temos que levar em consideração que os dependentes químicos são doentes. São pessoas que entram no mundo das drogas com a curiosidade de conhecer e acabam aliciadas por traficantes até chegarem ao ponto de viciadas e, consequentemente, se tornarem doentes, ou seja, dependentes químicos. Sabemos que o problema do tráfico de drogas não se verifica só em Franca e, sim, na grande maioria das cidades. A luta para tratar os viciados e combater os traficantes tem que ser constante. Fazemos parte de um ranking negativo: o Brasil é o segundo maior consumidor de drogas no mundo. Temos que fazer um trabalho sério, preventivo e combativo para que passemos aos jovens que esta realidade de envolvimento com as drogas é quase fadada à própria morte.

Comércio - Uma estatística divulgada pela Dise revela que os traficantes respondem pela maior parte das prisões feitas em Franca. Qual a avaliação do senhor sobre esses números.
Djalma -
Num universo de aproximadamente 1,3 mil presos que estão recolhidos no CDP, 62,3% estão diretamente ligados ao tráfico ou associação ao tráfico de drogas. É um número alto e que deixa bem claro que a polícia está trabalhando de forma enérgica no sentido de combater o tráfico. O restante dos presos, certamente, foi recolhido por alguma relação indireta com as drogas. Quando nos deparamos com autores de crimes contra o patrimônio, quase sempre, são pessoas dependentes que praticam estes delitos para conseguir dinheiro e comprar droga.

Comércio - A Dise conta com um efetivo muito aquém das necessidades para tentar combater o tráfico. Como vocês convivem com a defasagem de profissionais?
Djalma -
Contamos com a força de vontade de nossa equipe. Apesar de todas as dificuldades e da falta de uma estrutura adequada, prendemos mais de 600 traficantes no ano passado e a média vem se mantendo este ano. Temos um problema muito sério: quando um candidato ingressa na polícia, ao ver o serviço e perceber as dificuldades que o policial enfrenta no dia-a-dia, muitas vezes recebendo ameaças e sendo execrado pela sociedade que não enxerga o policial como verdadeiro protetor desta sociedade, acaba desistindo da carreira.

Comércio - Como é enfrentar um crime cada vez mais organizado sem contar com uma estrutura adequada?
Djalma -
Não digo que estamos, de forma alguma, menos aparelhados do que o crime. Muito pelo contrário. Estamos andando na frente ou, na pior das hipóteses, estamos juntos. Justamente pelo compromisso dos policiais que se aperfeiçoam e brigam no dia-a-dia para que avancem em relação ao crime. Além de não medir esforços para prender os traficantes, estamos fazendo um trabalho intenso de tentar conscientizar a sociedade sobre a necessidade da prevenção. Por isto, lançamos a campanha “Franca no Combate às Drogas”, organizada pela Dise, que incinerou, quarta-feira, drogas apreendidas em operações de combate ao tráfico. Na sexta, foi realizada palestra com o ex-delegado do Denarc e membro da Comissão de Segurança Pública do Estado, Luiz Carlos Magno. Distribuímos folhetos explicativos sobre os malefícios das drogas. Para o domingo [30 de junho], está programado um show de manobras radicais com o piloto de testes da Chevrolet, Carlos Cunha, às 16 horas, em frente ao Parque “Fernando Costa”. Enquanto tivermos a pessoa que adquire a droga, obviamente, a demanda vai aumentar, os vendedores vão aumentar. Precisamos educar as nossas famílias, resgatar alguns valores que estamos perdendo, como cidadania, religião, família, para que tenhamos uma sociedade justa, solidária e para que criminosos sejam retirados de circulação.

Comércio - Uma reclamação da sociedade e também da própria polícia é a impunidade. Um traficante que alicia crianças e jovens, quando preso, passa pouco tempo na cadeia e logo está vendendo drogas novamente. O senhor é favorável à uma punição mais rigorosa?
Djalma -
Não tenha dúvida. Eu defendo uma pena mais severa para estas pessoas. Nós sabemos que o brasileiro, a partir do momento que vê a possibilidade de ser punido de uma forma contundente e enérgica pelos nossos legisladores, pensará duas vezes antes de agir. Nosso ordenamento jurídico oferece aos infratores uma gama de recursos a que o Poder Judiciário fica restrito e tem que ser aplicada. Os criminosos são sabedores destes benefícios. Com isto, eles aproveitam. Hoje, um traficante primário, que conseguimos tirar das ruas após um extenuante trabalho investigativo, porque não é fácil pegar os maiores, pois estão aperfeiçoando suas condutas, terceirizando as funções, um indivíduo deste pega um certo tempo de prisão que, com o excesso de benefícios, cai para sete, oitos meses. Ele fica pouco tempo preso. Até a sociedade se assusta, principalmente nos pequenos centros. Você vai lá, retira estes criminosos de circulação e, pouco depois, ele está ali convivendo novamente nas ruas como se nada tivesse acontecido. A população reclama da polícia como se a polícia fosse a responsável por esta soltura quando, na verdade, não é nem a própria Justiça. São as nossas leis, que dão estas permissões para que eles saiam rapidamente da cadeia.

Comércio - Qual é a ferramenta mais eficaz para prender traficantes? A denúncia ou investigação por meio de escutas?
Djalma -
Não temos a menor dúvida de que a denúncia é a melhor arma para combater os traficantes. Se você for ao médico e não mostrar para ele onde está o problema, ele não terá como agir. Assim é com a polícia e com a investigação. A partir do momento em que a sociedade faz a comunicação de uma forma contundente, precisa e responsável, teremos condições de atuar com maior eficácia. Se tivermos a ponta da linha, nós conseguimos desen rolar o novelo. A polícia não é onipresente. Precisamos saber o que está acontecendo de errado para que possamos agir e, consequentemente, tirar de circulação estes criminosos que estão causando mal às pessoas.

Comércio - Como o senhor disse, os traficantes não param na cadeia. O temor de uma vingança não inibe as pessoas de denunciarem?
Djalma -
Sem dúvida. Um dos motivos maior das pessoas não denunciaram é o medo da represália. Mas, o que deixamos bem claro é que estas denúncias são anônimas. Não queremos identificar as pessoas que nos ajudam. Queremos que elas sejam anônimas para que façamos o nosso trabalho de forma bem feita, munidos de informações que ajudem a coroar de êxito as investigações. Para isto, temos que ser movimentados. Estamos vendo estas manifestações pelo País, o brasileiro tem mesmo que resgatar sua cidadania, as pessoas de bem precisam ajudar a combater este câncer do meio da sociedade, que são os traficantes. A segurança é um dever de todos nós. A polícia é obrigada a agir, mas a população pode ajudar.

Comércio - O senhor foi estagiário do Ministério Público por dois anos e há 20 é delegado de polícia, instituições que motivaram uma grande polêmica que foi levada às ruas pelos manifestantes. Qual sua opinião sobre a PEC 37?
Djalma -
Acredito que toda a polêmica foi causada pelo fato da proposta ter sido levada de uma maneira equivocada ao público. A PEC apenas ratificava o poder de investigação pelas Polícias Civil e Federal. Nosso ordenamento jurídico prevê as atribuições de cada instituição. O Poder Judiciário no julgamento, o Ministério Público como parte acusatória, os advogados na defesa, a defensoria pública na defesa e a polícia na investigação. Se taxou a PEC como a PEC da impunidade, mas não podemos rotulá-la de forma alguma desta maneira. A proposta não deixaria de punir ninguém, pelo contrário, ratificaria o que diz o texto constitucional e daria mais força para as polícias agirem nas investigações de maneira imparcial e concreta. Só queríamos ratificar o nosso trabalho, que já é muito difícil. Somos fiscalizados por muitas instituições e queremos que o ordenamento jurídico seja uniforme. Somos totalmente contra a impunidade. Não é preciso dividir as atribuições para combater o crime. O que precisamos é de instrumentos legais e de aparelhar e valorizar a polícia de forma mais adequada. A partir do momento em que tivermos o apoio incondicional da sociedade, as coisas vão ter uma melhora bem acentuada.

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