Confesso que demorei um pouco para perceber a natureza e o alcance das manifestações dos jovens agrupados em torno do Movimento Passe Livre. Restritas inicialmente a São Paulo, com elas o MPL pedia a anulação do aumento de R$ 0,20 nas tarifas de transporte urbano que havia sido aprovado há menos de um mês. Os excessos da Polícia Militar paulista repercutiram nos meios de comunicação. fizeram a coletividade despertar e as autoridades a diminuir as tentativas de controlar a mobilização com uso violento de força.
O movimento ganhou adeptos e alastrou-se por outras capitais e, por fim, chegou às principais cidades do país. As reivindicações também se ampliaram, encampando um conjunto de questões nacionais localizadas nas áreas da educação, da saúde, da segurança, do transporte público. Tudo isso tendo como pano de fundo os gastos para a realização da Copa das Confederações, um dos torneios caça-milhões da FIFA, que, ao lado da Copa do Mundo, serviu de justificativa para utilizar recursos públicos em uma manada de (futuros) elefantes brancos, as tais ‘arenas’. Afora excessos de parte-a-parte, a mobilização conseguiu sua primeira vitória. Os governos estadual e municipal, começando por São Paulo, capitularam quanto ao reajuste das tarifas, criando momentos para reflexões e ponderações.
Pagamos elevados impostos e recebemos, por parte do Estado brasileiro, uma contraprestação de quinta categoria, principalmente na educação e na saúde públicas. A corrupção afronta a todos nós e o excessivo custo das instituições de representação parlamentar em todos os níveis, desvirtua os orçamentos.
Com isso, o movimento que começara por lutar contra aumentos no transporte público nos oferece oportunidade para uma tomada de consciência cívica, para mostrar a políticos e dirigentes que a sociedade brasileira exige seriedade e responsabilidade no trato da coisa pública e, sobretudo, respeito ao cidadão, hoje relegado à condição de mero pagador de tributos.
A insatisfação das ruas bem que poderia ter sido minimizada já há algum tempo pelo partido no poder. Caso tivesse havido interesse e comprometimento, em dez anos algumas reformas, mais do que necessárias, como a tributária, política, administrativa, trabalhista, do Judiciário, teriam caminhado. O país precisa entrar, definitivamente, em uma era de modernidade, o que significa atualizar instituições que já não respondem às necessidades dos brasileiros. Na economia também se reconhece a importância das melhorias que o governo tem a obrigação de promover e patrocinar, tais como a elevação do padrão da competitividade, via inovações e descentralização do progresso.
As manifestações dos descontentes que estão indo às ruas, sem partidarismos, nos fizeram refletir sobre a corrupção, a irresponsável alocação de recursos, os gastos com e dos políticos, a péssima qualidade dos serviços públicos, enfim, a falta de respeito para com o cidadão e com a própria nação brasileira. Por tudo isso, o despertar do povo em busca da redenção da cidadania, da modernização do país e da preservação da democracia, deve ser visto positivamente. A partir dessa revoada, a nação brasileira não será a mesma.
Vicente de Paula Oliveira
Economista
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