Fazendo história


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Perguntam-me o que acho sobre a onda de protestos. Ainda é cedo para explicar, mas (mostro) exatamente o que penso. “Antes de tudo, há que se questionar a validade ou não do movimento em si, tomando por base suas reivindicações e seu significado, assim como o momento em que surge. (...) A inquietação das autoridades perante os acontecimentos, demonstrada pela inabilidade com que foram ou são tratados alguns problemas (vide as bombas desnecessárias, ou a proibição em péssima hora das manifestações públicas, assim como a violência adotada violência negada pelas autoridades para “deter” os estudantes, etc), é compreensível. (...)Como aceitar passivamente o risco de uma mobilização popular de consequências imprevisíveis? (...).

Se levarmos em consideração que o diálogo foi transformado em monólogo, que as vias burocráticas já provaram e comprovaram ineficácia (...), é justificável a saída às ruas (...) como forma de expressar a inquietação popular relativa aos problemas que afligem a nação. Se não houver a participação agora da classe considerada “pensante” (e portanto “perigosa”) na resolução dos problemas nacionais, não como causadora (como se quer fazer parecer), mas como apresentadora de soluções, como esperar que mais tarde aqueles que hoje são impedidos de se manifestar, de errar e acertar, possam resolver outros problemas, quiçá mais complicados?

(...) Não negamos que existam infiltrações de esquerda ou direita, ou mesmo de agitadores... Onde não existe? (...) se infiltrações existem, apenas subsistirão se houver condições para tanto, o que, neste caso, não corresponde à realidade. Pelo contrário. É fácil perceber a disposição em não permitir agitação, inversão de valores (...). Será que não percebem para onde está converge a opinião pública? Será que não vêem a hostilidade com que o aparelho repressivo é recebido pelo povo, mesmo em campos de futebol? Será que não vêem que seus próprios filhos podem estar (se não estão) participando (...)? Por isso, (...) é que nós (...) estaremos ao lado do movimento enquanto demonstrar maturidade e firmeza de propósito. Conservamos, porém, a (...) liberdade de transformar nossa posição de apoio em antagonismo diante de qualquer tendência em deixar a bandeira das liberdades democráticas, da volta ao estado de direito, optando por objetivos tendenciosos, radicalismos e violências que não coadunam com o espírito estudantil e com as formas de expressão utilizadas (...) . Resta-nos, finalmente, trabalhar para que toda essa movimentação atinja seus objetivos, deixando como saldo a ressurreição de uma classe.”

Preste atenção: esse texto foi escrito por mim mesmo, no editorial do jornal Análise, do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Mackenzie, em maio de 1977. Explodia, na ocasião, o movimento estudantil que levou milhares de estudantes às ruas com reivindicações de caráter político, como a defesa das liberdades democráticas, o fim das prisões e torturas e a anistia ampla, geral e irrestrita. O movimento, em plenos anos de chumbo, se tornou a grande mobilização inicial do processo de redemocratização do Brasil. Abriu caminho para os metalúrgicos do ABC, que iniciaram as grandes greves, angariando a simpatia popular (...). Eu era editor do jornal e estava lá, no olho do furacão, gritando palavras de ordem contra o coronel Erasmo Dias...

Minha experiência de 1977 se deu sob ditadura. Não quebramos bancas de jornal. Não incendiamos ônibus. Nossa energia estava canalizada para expressar a luta. Lembro do cuidado em não deixar que malucos se passassem por estudantes e radicalizassem. (...) Estávamos rodeados de gente interessada em usar os estudantes como bucha de canhão... Agora é a sua vez.

Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista

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