O dom total de si envolve o discípulo ‘cada dia’
Com a graça de Deus, nos encontramos reunidos em torno da Palavra e da Eucaristia, neste dida dedicado ao Senhor. Sua palavra é viva e eficaz. Os textos da Sabrada Escritura para hoje, são: Zacarias 12, Gálatas, 3 e Lucas 9. Vejamos o que Ele nos revela para nossa edificação.
1ª LEITURA — ZACARIAS 12
O trecho, extraído do livro de Zacarias, é misterioso. Fala de um homem justo e inocente que foi ferido até a morte e nos dá a entender que os responsáveis por este crime foram os habitantes de Jerusalém. O Senhor, porém – nos relata a leitura – despertou no povo culpado um profundo sentimento de arrependimento pela maldade cometida. Todos se arrependem e contemplaram aquele que tinha transpassado. Houve pranto desesperado como o de pais que perdem o próprio filho único, semelhante ao luto quando morre o primogênito.
Quem é este homem e por que o mataram? O profeta, que viveu duzentos ou trezentos anos antes de Cristo, sem dúvida se referia a um fato dramático ocorrido no seu tempo. Nada mais sabemos. Mas o que é importante para nós é que o evangelista João identificou esse misterioso personagem como sendo uma figura de Jesus. Os homens do mundo inteiro, com efeito, contemplam Cristo, condenado e pregado na cruz, como Salvador de todos.
2ª LEITURA — GÁLATAS, 3
Como identificar os batizados? O traje que identifica o cristão não consiste numa túnica preta ou roxa, não é feito de lã, de algodão, de linho ou de algum outro material. Os cristãos são os que se despojaram de roupas velhas, sujas e esfarrapadas que os cobriam: a embriaguez, os adultérios, os furtos, os ódios, as vinganças... e se revestiram da ‘pessoa de Jesus’.
Contemplando o cristão, escutando o que ele fala, verificando como ele sempre procura entender, desculpar, ajudar, apoiar quem cometeu erros, observando como ele ama até os próprios inimigos, todos os homens devem estar em condições de poder reconhecer nele a presença da pessoa de Cristo.
EVANGELHO — LUCAS 9
A primeira parte do texto apresenta Jesus em oração. Com frequência Lucas observa que Jesus, antes de cumprir algum gesto importante, ou antes, de transmitir um ensinamento com um significado extraordinário, se recolhe em oração.
Jesus começa perguntando: ‘Quem dizem que eu sou’? Os discípulos ficam um tanto surpresos diante de tal pergunta, pois ele nunca deu a impressão de ligar para as opiniões que circulavam a respeito dele. Mas, enfim, respondem: ‘Uns dizem que és João Batista, outros, Elias, outros pensam que ressuscitou algum dos antigos profetas’. Por que não o reconhecem como Messias? Porque ele não corresponde às expectativas. Não tem nada do grande rei vencedor e glorioso que estão esperando.
A segunda parte contém a segunda pergunta: ‘E vós, quem dizeis que eu sou?’ Pedro, em nome de todos responde: ‘Tu és o Messias de Deus!’ Jesus não o desmente, mas ordena energicamente a todos que não o digam a ninguém. Por quê? O motivo é simples: as palavras de Pedro são exatas, mas o conteúdo está errado. Jesus percebeu claramente que na mente dos discípulos há um grave equívoco sobre a sua pessoa: eles alimentam falsas esperanças, cultivam recônditos sonhos de glória que nunca concretizarão. Ele não é o messias que todos estão esperando. Chegou a hora na qual ele deve mostrar a sua carteira de identidade.
Na terceira parte do Evangelho ele esclarece: ‘É necessário que o Filho do Homem padeça muitas coisas, seja rejeitado pelos anciãos, pelos príncipes dos sacerdotes e pelos escribas. É necessário que ele seja levado à morte e que ressuscite ao terceiro dia’. A última parte contém exortação aos discípulos de todos os tempos. Acreditar em Jesus não significa professar a própria fé num pacote de verdades aprendidas na catequese, mas segui-lo, participando do seu destino. ‘Se alguém quiser vir após mim, renegue a si mesmo, tome a sua cruz e me siga’. O Mestre nos coloca diante de uma escolha. Lucas é o único entre os evangelistas que insere nas palavras de Jesus o inciso ‘cada dia’. O dom total de si envolve o discípulo ‘cada dia’. Todos conseguem cumprir um gesto isolado de generosidade, todos conseguem esquecer a si mesmos por uma hora. Difícil é manter esta disposição a ‘cada dia’.
José Geraldo Segantin
Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br
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