Cacau e suas castanhas que valem ouro


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Entrei no varejão para compras ordinárias da semana e dei de cara com o extraordinário cacau: grande, avermelhado, lindo e improvável. É incrível pensar em chocolate e cacau como originado e origem, um não se parece com outro em nada. Aliás, é só cortá-lo para comprovar isso, ele exala imediatamente aquele cheiro penetrante como do cupuaçu, cuja família é a mesma - malváceas. Não é a primeira vez que eles aparecem por aqui e sempre me perco em devaneios com sua presença, digamos, quase estrangeira.

A característica de fruta comestível acabou ficando em um plano desconsiderado, o que vale ouro são as suas castanhas secas e moídas, que nos presenteiam com a fabulosa matéria-prima do chocolate. Dá até para ver como é o processo em casa mesmo. Primeiro, retire as sementes, coma a polpa - ou deixe-as secarem ao sol, mas não deixe pegar sereno, recolha-as à noite. Quando estiverem bem secas, é só moer, melhor, pilar num pilão, até virar uma pasta. Essa pasta poderá ser misturada ao leite, coada num pano, adoçada e apurada no fogo. Quando atingir aquele ponto que não escorra muito, derrame-a numa mesa de madeira, deixe endurecer e então coma o puro e verdadeiro chocolate. Ou simplesmente compre os frutos e enfeite a sua fruteira.

Vale lembrar que, inicialmente, o chocolate era apenas bebido, para isso se misturava, às sementes moídas, a água. Preparo quase igual ao do nosso café. Dizem que Cristóvão Colombo acrescentava café ao seu chocolate, ou vice-versa. O gosto era forte e apimentado, o efeito, sempre prazeroso, poderoso; estava ligado à divindade - bebida de sacerdotes Maias. Aliás, o cacau é como o café e o vinho, pois carrega consigo a marca do seu lugar de nascimento: quanto mais puro, mais fácil a identificação de sua essência. É possível saber quais as folhas que lhe proporcionaram sombra, quais madeiras cresceram por perto e o tipo do solo que os cultivou.

O cacau não é brasileiro, vem da América Central, mas encontrou no sul da Bahia um lar perfeito e modificou para sempre aquela região. O Brasil já foi o maior exportador de cacau e, lógico, era autossuficiente. Hoje em dia o cenário é bem diferente, nossa produção não chega para nós e importamos o fruto. A derrocada da nossa produção do cacau tem nome, responde por “vassoura de bruxa”. A Embrapa vai conseguir identificar o gene desse fungo que tem no cacau seu hospedeiro. Algumas modificações já foram feitas e os cacaueiros de hoje já são mais resistentes, mas os produtores dizem que o gosto do cacau de ontem deixou saudades, era mais apimentado. As novas mudas, dizem, são meio insossas.

Mesmo desconhecendo-os, esses frutos me fazem voltar ao anoitecer de minha infância, quando me apaixonei por Jorge Amado e todos os seus romances. Fictícia ou não, a história protagonizada pelo cacau, até hoje é relevante para nosso País, e foi romantizada pelo escritor, que teve o pai envolvido naquela saga de pouca fortuna, muito sangue e enormes esperanças. Disputas sanguinárias pela terra baiana, os documentos suspeitos, os armazéns e a pinga que indiretamente escravizava os trabalhadores. Cacau não é como maçã, custa 4 reais a unidade e traz nas suas sementes as marcas da fortuna e do sofrimento humano.


DICA DA SEMANA

Legumes assados

Não sei quanto a vocês, mas eu adoro vinagre balsâmico quando o assunto é rúcula. O agridoce daquele enriquece o picante da rúcula.

Mas os legumes também podem ser enriquecidos com o uso do vinagre.

Pegue uma assadeira e coloque os seguintes legumes picados em tamanhos pequenos, em cubinhos: cenoura, abobrinha, abóbora, batata doce, pimentão vermelho e também a indispensável cebola roxa. Ela deve ser cortada em quatro no sentido do comprimento sem desmembrar as suas pétalas.

Lembre-se de que não deve haver sobreposição dos legumes, a assadeira deve acomodar tudo muito bem.

Em seguida, regue esses legumes com bastante azeite, vinagre balsâmico, sal, pimenta do reino moída na hora, tomilho, alecrim.

Depois asse por mais ou menos 30 minutos, até que eles estejam assados e bem crocantes.

Tire-os do forno, espere esfriar e então acrescente a rúcula e regue novamente com seu melhor azeite. Garanto que fica uma delícia!

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