Aos 43 anos, ele é um dos diretores chaves de um dos maiores grupos educacionais do Brasil. Fábio Ferreira Figueiredo é o responsável pela expansão do Grupo Educacional Cruzeiro do Sul, que recentemente comprou a Unifran (Universidade de Franca) e o Colégio Alto Padrão.
Filho de um dos cofundadores da Universidade Cruzeiro do Sul, Fábio cresceu ouvindo falar sobre educação privada. Se formou em direito e fez pós-graduação em administração. Depois de ocupar diversos cargos no grupo, atualmente é o homem que coordena suas aquisições.
Com uma agenda lotada e muitas viagens, Fábio conversou com o Comércio na tarde da última quarta-feira, enquanto a seleção brasileira enfrentava o México pela Copa das Confederações. Foram cerca de 30 minutos de entrevista sobre o futuro da maior universidade de Franca.
O diretor revelou que a relação da Unifran com o grupo Cruzeiro do Sul é antiga. “Meu pai e os professores Clóvis Ludovice e Abib Cury [da Unifran] se conhecem desde a década de 70. Trocaram muitas experiências.”
Ele também disse que a universidade francana sempre esteve na mira do processo de expansão do grupo, mas que a resistência dos sócios em vendê-la acabou atrasando a conclusão do negócio que só ocorreu agora em maio. Na conclusão, Abib recebeu o valor referente às suas ações em dinheiro. Já Clóvis Ludovice optou por receber parte de seu pagamento em ações do novo grupo. Os valores não foram divulgados. No mercado, especula-se que tenham sido R$ 120 milhões. Fábio nega.
Com a aquisição da Unifran, o grupo Cruzeiro do Sul, que tem sede em São Paulo, passa a ter mais de 80 mil alunos e 3,5 mil funcionários. Além da universidade francana e do Colégio Alto Padrão, o grupo controla a Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul), o Colégio Cruzeiro do Sul, a Universidade da Cidade de São Paulo (Unicid) e o Centro Universitário Módulo, em Caraguatatuba. Há ainda o Centro Universitário do Distrito Federal, em Brasília.
Sobre o futuro, Fábio garantiu que não devem haver grandes mudanças a curto e médio prazo. O diretor ainda anunciou investimento de R$ 5 milhões na universidade nos próximos dois.
Comércio da Franca - Como foram as negociações com os donos da Unifran? E por que o Grupo Cruzeiro do Sul decidiu investir na compra desta universidade?
Fábio Figueiredo - Diria que, apesar de ser uma negociação complexa e longa, não foi anormal. Meu pai, que é um dos cofundadores da Cruzeiro, já conhecia os dois sócios [da Unifran], o Clóvis [Ludovice] e o Abib [Cury]. Eles são contemporâneos, da época em que começaram os investimentos em educação. Essa amizade já dura 30, 40 anos. Então, sempre conversaram muito a respeito da universidade. Já conhecíamos os indicadores da Unifran. Também já tínhamos estado em Franca, conhecendo as instalações. Mas o interesse específico surgiu mesmo em 2007, quando iniciamos esse movimento de consolidação no mercado e de aquisições. A Unifran sempre foi um sonho nosso, um grande desejo. Mas a decisão de venda dos sócios é mais recente, foi tomada em 2010. Desde então, começamos a ter mais contato.
Comércio - Muito se especula sobre o valor da transação. A maioria fala em R$ 120 milhões. Qual foi o investimento da Cruzeiro do Sul?
Fábio - Infelizmente, não posso dizer, por inúmeras razões. A primeira e mais forte é uma questão de sigilo contratual. Tenho lido vários valores a respeito. Mas o que posso dizer é que ninguém acertou.
Comércio - Inicialmente, a previsão anunciada pelo grupo era de que a transição durasse 60 dias. Mas a transferência de gestão foi encerrado na última segunda-feira, cerca de um mês antes. O que aconteceu?
Fábio - O prazo foi um pouco menor do que a gente esperava. Os 60 dias eram uma estimativa. A estipulação deste prazo se deu em função da conclusão de processos que na verdade pouco dependiam dos envolvidos. Como, por exemplo, a atualização e o registro dos contratos na Junta Comercial, nos cartórios e documentações exigidas. Coisas que não tinham muito a ver conosco, mas com outros serviços que acabaram andando mais rápido do que prevíamos. Isso foi bom porque teremos mais tempo para conhecer a dinâmica de Franca, a operação da Unifran mais a fundo. Assim, podemos espantar mais rápido esse fantasma de apreensão que ronda a todos. Sempre digo que a expectativa, normalmente, é muito pior que a realidade.
Comércio - Como ficam os funcionários? O senhor fez uma reunião com cerca de 400 colaboradores na última segunda-feira. Como foi esse primeiro encontro?
Fábio - Essa reunião foi feita uma hora depois de assinarmos todos os documentos para a transferência definitiva. Antes disso, internamente, todos estavam minimamente informados sobre o que vinha acontecendo. Mas ainda não havíamos informado qual a data em que a transferência efetivamente ocorreria. Resolvemos convocar essa reunião para que os professores Clóvis e Abib pudessem informar a todos que o negócio estava feito e apresentar os novos controladores. O auditório estava absolutamente lotado, com pessoas em pé. Claro que senti um clima de apreensão. É até natural isso. A mudança sempre traz um pouco de apreensão. Mas não pretendemos mudar nada a curto e médio prazo. Isso nem seria lógico. Se nos interessamos pela universidade por tudo o que ela é, não podemos chegar agora e querer mudar aquilo que nós achamos interessante. Não há razão para mudanças radicais.
Comércio - A partir de agora, quem responderá pela Unifran?
Fábio - Em princípio, os gestores que lá estão continuam. A reitoria, a pró-reitoria, as coordenadorias de cursos, os gerentes de áreas, todos serão mantidos. Esse momento que estamos vivendo agora e que ainda deve perdurar vai demandar esforço nosso para conhecer cada um dos setores, as pessoas, aprender como funciona o mercado de Franca e a instituição em si. Cada instituição e cada mercado têm suas próprias características, os quais nosso grupo respeita bastante. A marca da Unifran vai continuar lá no campus. Diferente de outros grupos, não chegamos trocando placa de nomes. A única coisa que vamos mudar e a população de Franca verá isso logo é a identidade visual da universidade. Nós temos essa identidade para identificar nosso grupo e que agora fará parte do logo da Unifran.
Comércio - Ao anunciar a compra da universidade e do Colégio Alto Padrão, o senhor chegou a afirmar que a revisão da oferta de cursos seria algo natural. Isso significa que a Unifran deve extinguir algum curso?
Fábio - Eu lhe respondo relativamente à Unifran como lhe responderia em relação a qualquer outra universidade nossa. Sempre há a extinção de algum curso porque os cursos têm ciclos. Para citar um exemplo: a engenharia civil, há dez anos, nós tínhamos dificuldade para oferecer. Não havia interesse e demanda pelo curso. Hoje a situação é muito diferente. O curso é um dos mais procurados. Em sentido contrário, existe a odontologia que no passado tinha muita demanda e, de uns anos para cá, houve vestibulares em que quase não tivemos interessados. Portifólio de cursos é uma análise constante, que fazemos a cada semestre. É natural extinguir alguns e implementar outros.
Comércio - E quais são as novidades? Haverá a criação de algum curso novo?
Fábio - A Unifran tem um portifólio bastante extenso de cursos oferecidos. São mais de 50. Nós sempre procuramos trazer novidades em curto prazo. No caso da Unifran, estamos tendo que pensar bastante para encontrar algo inédito. Com certeza, devemos lançar um ou dois cursos de graduação a partir do próximo vestibular, mas ainda não posso adiantar nada. Estamos estudando também a ampliação dos cursos de pós-graduação strictu sensu [mestrado e doutorado].
Comércio - Depois do anúncio da compra, boa parte dos alunos ficou apreensiva com a possibilidade de reajuste das mensalidades. Há alguma definição a este respeito?
Fábio - Sendo muito sincero, não existe nenhum estudo sobre revisão de política de preços. A gente fez este tipo de estudo na análise prévia da Unifran e concluímos que o preço está de acordo com a capacidade do mercado, da renda da região. O que deve acontecer é simplesmente o repasse anual da inflação.
Comércio - A Unifran também possui uma política de concessão de bolsas de estudos e convênios com prefeituras e entidades privadas. Esses benefícios devem ser mantidos?
Fábio - Existe uma série de convênios. Vamos manter tudo como está. Não pensamos em fazer qualquer alteração neste sentido. Já sabíamos dessas parcerias e descontos e não iremos mexer.
Comércio - Muito se fala sobre o destino da Unifran, mas a negociação também incluiu o Colégio Alto Padrão. O que deve mudar por lá?
Fábio - Lá, também adotaremos a mesma política. Não faremos grandes mudanças a curto e médio prazo. Como se trata de um colégio, a relação dos alunos e de seus pais com a direção é mais próxima, por conta disso, já enviamos cartas a todos informando sobre a mudança e tranquilizando-os. Nos colocamos à disposição para esclarecimento de qualquer dúvida. Como na Unifran, no Colégio Alto Padrão, a direção e os coordenadores também continuarão os mesmos. O sistema de ensino também.
Comércio - O Grupo Cruzeiro do Sul é atualmente um dos maiores do Brasil. Como estão os planos para mais expansões?
Fábio - Estamos estudando. Temos algumas sementes lançadas, que estão meio insipientes ainda, mas a gente espera dar algum passo nos próximos meses.
Comércio - Na opinião do senhor, qual a grande contribuição que o grupo poderá oferecer à Unifran?
Fábio - Na minha opinião ambos têm contribuições a dar. A Unifran para o grupo e o grupo para a Unifran. Neste segundo caso, acho que nossa maior contribuição será o ganho de força da universidade. Fazendo parte de um grupo maior, entre os mais bem colocados do mercado brasileiro, a Unifran terá condições de crescer ainda mais e de melhorar a qualidade do ensino que oferece, que já é boa. Para você ter uma ideia, temos hoje no grupo 15 cursos de pós-graduação strictu sensu, sendo seis de doutorado. Essa é uma conquista de que nos orgulhamos. De longe, de muito longe, é a melhor avaliação de pós-graduação dos maiores grupos de educação brasileiros. Queremos melhorar os indicadores da Unifran. Essa é a nossa meta.
Comércio - Quais são os planos da nova gestão da Unifran?
Fábio - Temos um plano de investimento próximo dos R$ 5 milhões para os próximos dois anos. Vamos priorizar o curso de medicina, que é novo e ainda não está totalmente estruturado, já que está na primeira turma. Mas também vamos investir na melhoria da biblioteca e em equipamentos para todos os cursos.
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