Mar de gente ocupou as ruas e protestou pelo fim da corrupção em Franca; veja


| Tempo de leitura: 4 min
Rua Monsenhor Rosa virou um ‘mar de gente’ no início da noite de ontem: um dia para ficar na história
Rua Monsenhor Rosa virou um ‘mar de gente’ no início da noite de ontem: um dia para ficar na história

Foi de arrepiar. Um mar de gente pintou a cara de verde e amarelo, empunhou cartazes e tomou conta das ruas de Franca para protestar contra o cenário político nacional ontem. Jamais a cidade viu algo parecido. A mobilização ficará na história como uma demonstração marcante de amor à pátria e de indignação com a corrupção que toma conta do país. Algo para jamais se esquecer, para dar orgulho de encher o peito e dizer: eu participei! Mas também teve momentos de dar medo. Terminado o manifesto pacífico, quando as pessoas de bem já havia se dispersado, um pequeno grupo de vândalos transformou a Praça Barão em praça de guerra. Lojas foram saqueadas, ônibus atacados, terminal depredado, lixeiras incendiadas. Uma selvageria deprimente para se esquecer. A beleza das manifestações e a selvageria de alguns vândalos vistas em Franca se repetiram pelo país (leia mais nas próximas páginas).

Era para ser um dia inesquecível. O tempo ajudou. Céu de brigadeiro, temperatura agradável. A população disse sim à convocação. Saiu de trás do computador e foi para as ruas protestar contra tudo. Impossível dizer quantas pessoas participaram. Em uma estimativa modesta inicial, a Polícia Militar informou que eram em torno de cinco mil. Depois, o número foi atualizado para mais de dez mil. Quem percorreu todo o trajeto e viu a massa tomando conta das vias garante que tinha mais gente. O número não importa. O que importa mesmo é que a cidade acordou e deu o seu grito de basta aos abusos.

A simbólica Praça 9 de Julho foi o ponto de concentração. Os manifestantes foram chegando aos poucos. A primeira impressão foi de que a adesão seria pequena. De repente, foi brotando gente de todos os lados. Crianças, jovens, adolescentes, homens, mulheres, idosos. “Eu já estava até a tampa com tanto imposto inútil e corrupção. Já passou da hora dessa juventude acordar e colocar esse país pra frente”, afirmou o aposentado Dirceu Ribeiro de Carvalho, 81.

Muitos manifestantes se enrolavam em bandeiras, outros estavam os rostos pintados. Referências a partidos políticos eram vetadas. A imensa maioria chegou a pé. Alguns foram de bicicleta ou skate. Deficiente físico, Antônio Luiz Pereira, 27, foi com sua cadeira de rodas. “Este é um exercício pró-ativo da democracia, de quem não espera dois anos para dar o seu voto e, depois, culpar alguém. O movimento político se faz no dia-a-dia e não só na eleição. Estamos na rua corrigindo os desmandos e os abusos. É um momento histórico do nosso país.”

A tarifa cobrada pela empresa de ônibus São José foi o tema principal do protesto. Mas não o único. O repúdio à corrupção uniu todos os manifestantes em uma só voz. “Não é por centavos. É por direitos”, dizia um cartaz. “Ou para a roubalheira ou paramos o Brasil”, alertava outro. Havia muitas críticas à falta de investimento na Saúde e Educação. Também sobrou para a Fifa e o investimento bilionário na construção de estádios para a Copa. “Fora Dilma”, pedia muitos. Os vereadores de Franca não foram esquecidos. “Eles apoiam a PEC 37. Eles não nos representam.” Houve ainda quem preferiu brincar. “Skol litrão a R$ 1,50 já”.

Do Centro, o grupo caminhou em direção à Prefeitura. A maioria, simplesmente, ignorou a sede do governo municipal. Alguns soltaram bombas de São João e chutaram a grade de ferro. Vidraças teriam sido quebradas. O destino seguinte foi o prédio da Câmara, onde vereadores e, principalmente, o presidente Jépy Pereira (PSDB) foram “homenageados”. A moção de aplausos à PEC 37 custou caro. Eles não estavam lá para ouvir os insultos.

O Hino Nacional e o arrepiante canto “eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor” entoados pelos manifestantes foram a trilha sonora principal da caminhada. Moradores do Edifício Gávea atenderam aos pedidos e piscaram as luzes dos apartamentos quando o mar de gente passou pela avenida Sete de Setembro.

A massa humana escolheu o viaduto da Major Nicácio para encerrar o manifesto. As pistas de cima se transformaram num grande parque onde as pessoas se confraternizam ao som de um batuque. Casais se beijavam. Uma bonita jovem loira exibia com carinho uma rosa que ganhou. “Sou gringo no documento, mas o meu coração é brasileiro”, escreveu o dinamarquês Niels Opstrup, que mora em Franca há nove meses e levou a mulher e filhos para o protesto.

As pessoas de bem voltaram para suas casas orgulhosas por ter terem escrito um capítulo ímpar na história de Franca e do Brasil. Elas não imaginavam, mas vândalos entrariam em cena logo depois para manchar a história que tinha tudo para ser linda.

Confira os vídeos:

Veja vídeo das manifestações em Franca aqui e aqui

Veja o depoimento de Dirceu Carvalho, de 81 anos, que acompanhou a manifestação

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários