O inferno somos nós (mesmos)


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O que queremos? Aonde chegaremos? Será que mudaremos? Flores, papéis picados, andanças, faixas, palavras de ordem. Jovens, adultos, idosos, crianças. Filhos, pais, avós, netos. São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Belém, Maceió, Franca, Nova York, Rosário, Lisboa, Londres, Sidney.

O Brasil vive um momento inédito em sua história. Por todas as partes do país e em várias cidades do mundo, todas as gerações desta nação estão indo às ruas. Pedem, exigem, gritam - ainda não se sabe bem ao certo pelo quê, mas sabe-se o que as move: a insatisfação pela inércia que toma conta de nosso país.

Vinte centavos foram apenas o estopim. Não é isso, é muito mais! O movimento não tem partido, não defende uma corrente política, não tem um inimigo específico. O movimento que domina nossas ruas é sinal de que o comodismo típico do país do futebol está saindo de cena.

Seleção em campo, disputando uma Copa no próprio Brasil. Há uma semana, tal fato pararia o país, mas ontem não. Brasil e México em Fortaleza foi apenas pano de fundo para uma população inteira insatisfeita - talvez consigo mesma - protestar.

A jovem democracia brasileira, beirando seus 30 anos, dá mostras de amadurecimento. Um povo oprimido - antes politicamente, depois economicamente, agora intimamente - explode. Seja a tarifa de ônibus, seja a Copa, seja a PEC da Impunidade (que limita os poderes de investigação do Ministério Público), seja a inflação, seja a corrupção, tudo pode ser motivo para manifestação. O que não pode é depredação.

Para que incendiar a Assembleia Legislativa do Rio? Para que quebrar portas e janelas da Prefeitura de São Paulo? Que ganho terá a população com lojas saqueadas ou agências bancárias destruídas? Para que incendiar o carro da Rede Record? Por que funcionários da Rede Globo precisam exercer seu trabalho escondidos, sem a canopla de seus microfones, para não serem agredidos?

É direito reivindicar, é dever respeitar. Nossa democracia evolui, nossa velha República ainda engatinha - apesar dos seus quase 124 anos. É preciso usar nossa liberdade para criarmos um verdadeiro país. Nossa liberdade deve ser para lutarmos contra nosso maior inimigo - nós mesmos. Nós, que somos responsáveis por quem nos governa, por quem cria nossas leis.

É chegada a hora de pararmos de querer levar vantagem em tudo. De pensarmos que não podemos nada. Ou pior, de acharmos que tudo é normal. Exorcizemos o “jeitinho brasileiro”, “vamos pra rua”, mudemos! Não é agora, mas só será assim que um dia o tal gigante poderá despertar e se tornar uma grande República.

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