Antes da sucessão


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Ao contrário de outros ativos, a empresa é um ser vivo, mas, diferentemente, do corpo humano que tem finitude, pode sobreviver indefinidamente desde que submetida a permanente recriação e renascença. Por consequência, tem sucessão, um vírus mortal, salvo se for tratado de forma adequada a mantê-lo inerte e inofensivo. Este tema, importante e presente em todas as empresas, mas vital nas familiares, é de tal extensão que merece várias reflexões. Uma delas, ‘sucesso antecede a sucessão’.

Vários são os motivos que levam à criação de uma empresa: do idealismo à necessidade, da conveniência à manifestação de talento, da demanda existente à carência latente. Salvo casos excepcionais de organizações criadas com propósito específico e por tempo determinado, sua existência traz embutida a presunção e desejo de perenidade, com decorrentes e automáticas dimensões de sucessão de capital e de gestão, que mudarão inexoravelmente de mãos já que nem os sócios nem os gestores são eternos.

Antes de cuidar disso que é complexo, é notório como poucos se dão conta de algo basilar, estratégico e factual: o sucesso antecede a sucessão!

Se preferirem, é inócua e sem propósito a sucessão do insucesso! A perenidade é uma expectativa, um desejo generalizado que, entretanto, não ocorre ao natural: requer e será fruto de estratégia correta, implementada de forma eficiente e eficaz por pessoas adequadas, capacitadas e motivadas, capazes de disponibilizar produtos e serviços desejados por consumidores a preços que remunerem toda a cadeia envolvida, de matéria prima e insumos ao consumidor final.

De forma objetiva, esta é uma visão capitalista e privativista como a vida em realidade é. Nosso demonstrativo de L&P ou DRE (Demonstração do Resultado do Exercício) é um filme que mostra nossa atuação na guerra da competição mundial onde, ao longo do tempo, só resultados positivos nos salvam sendo estes, na essência, decorrentes da prática de receitas maiores do que os custos e despesas incorridas.

A profundidade disso passa por tecnologia, estrutura de capital, localização, pesquisa, marketing etc, e, ‘last but not least’, pessoas, sem as quais nada é possível.

Se o filme for de final feliz, ótimo, estaremos em condições de deixar patrimônio e funções executivas para sucessores, não importa se de uma família, de uma fundação, de investidores ou até de uma doação à benemerência. Se não for, a perenidade terá sido um mero desejo e sonho que uma vez habitaram nossa alma.

Pior do que isto, serão irrelevantes as razões do insucesso, as quais servirão apenas para justificar o caso, lembrando, como diz o ditado, que ‘explicação só serve para porteiro de boate’.

Perguntem a quem controlou e geriu a Varig, Mesbla, IRFMatarazzo, Gradiente, Sadia, Kodak, Enron e milhares de outras pelo mundo afora. Preparar a sucessão sem cuidar do sucesso (da gestão) é inócuo. Ao sucedido restará o fracasso e aos sucessores o passado e a história que, na vida real, só servem para rechear museu.

Telmo Schoeler
Administrador, sócio-fundador e Leading Partner da Strategos - Strategy & Management

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