Quando Allan Kardec, em abril de 1864 publicou, em Paris, a primeira edição do terceiro livro do Pentateuco Espírita, O Evangelho segundo o Espiritismo, assistido pela falange do Espírito da Verdade e sob comando de Cristo, já fez constar a asserção luminosa: ‘Fé inabalável só o é aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade.’
Estava assentado um dos pilares do Espiritismo, qual o requisito da observância incondicional da Verdade (a Lei Eterna e Imutável), mesmo que disso possa resultar contrariedade a algum postulado menos verdadeiro da sua Doutrina.
Razão bastante para que repetisse tal conceito no último livro da Codificação, A Gênese, publicado em 1868, no qual o mestre lionês confirma a indispensável obediência às revelações científicas, já que ciência é conhecimento dinâmico no sentido de abarcar tudo quanto abriga a infinitude universal: ‘O Espiritismo - assevera -, caminhará de par com a Ciência. Se a Ciência demonstrar que a Doutrina está em erro em algum ponto, esta se modificará nesse ponto’, daí defender a fé inabalável, porque raciocinada. Quando alguém crê numa coisa, é porque a entende e compreende. É assim que a fé espírita dirige-se a fatos e coisas que, ao longo dos tempos, vêm de ser comprovados pela Ciência.
Estas ponderações vêm a propósito de uma entrevista realizada pela Folha de S. Paulo, edição de 01/04/2013, com o filósofo britânico Richard Dawkins, autor de O Gene Egoísta, O Relojoeiro Cego e Deus, um Delírio, obras nas quais apresenta seu ideário ateu.
Concordamos em parte com Dawkins, especialmente quando afirma que ‘não há necessidade de se conhecer o pensamento religioso ou ter-se qualquer conexão com entidades divinas para se viver uma vida digna e eticamente responsável.’ É que aprendemos com a Doutrina Espírita que ‘fora da caridade não há salvação.’ Quer dizer, para salvar-se, alguém independe de religião. Basta que seja caridoso.
Também concordamos com o entrevistado quando combate o dogmatismo que cerceia a liberdade. A Doutrina Espírita, iluminando consciências a partir dos ensinamentos de Jesus, defende, penhoradamente, o livre-arbítrio, como manifestação da Justiça Divina sobre um dos mais lídimos anseios humanos. De outra parte, discordamos do entrevistado no quanto se esforça para dissociar felicidade de crença, dizendo que os países mais desenvolvidos prescindem de crer em divindades.
Mas, a realidade do espírito impõe-nos observar que países podem até ser desenvolvidos, porém, somente do ponto de vista material, o que não indica relação com a falta de crença em Deus, porque ninguém ignora que ali são registrados índices altíssimos de suicídios, alcoolismo, drogadição e violência de toda ordem.
Na nossa visão, felicidade é paz, consciência tranquila, dever cumprido. Estes são valores diretamente relacionados com o conforto e o bem-estar que o desenvolvimento meramente material não pode oferecer, porquanto as carências humanas profundas se resolvem a partir dos valores do espírito e independem de religião.
Felipe Salomão
Bacharel em Ciências Sociais, diretor do Instituto de Divulgação Espírita de Franca
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