Maquiagem da miséria


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As últimas semanas foram recheadas de más notícias, especialmente para o governo. Certamente o ‘PIBinho’ e a volta da inflação assustam, mas, na minha visão, o crescimento grande da agricultura, que salvou o PIB, não é motivo para tanta comemoração, já que estamos voltando a ser economia primária, em vários sentidos.

A alta de juros além do previsto também provoca apreensão, porém, são os juros que as famílias pagam a cartões de crédito é que deveriam ter ação imediata do governo. Todavia, como esperar ação do governo federal se assistimos sua derrota no Congresso Nacional, mostrando sua frágil articulação política? Aliás, desarticulação política. Nunca se viu tamanha insensibilidade de assessores da presidente.

Não bastasse os problemas conjunturais, o Bolsa-Família protagonizou verdadeiro pavor entre os beneficiados. Houve corre-corre, quebra-quebra, saques e depredações. Os governistas foram rápidos: culpa da oposição! Ou dos ‘desumanos’, conforme a presidente Dilma.

A Caixa Federal entrou no ‘coro’ dos governistas, mas a Folha de São Paulo descobriu que a origem do tumulto tinha ocorrido na própria Caixa, que liberou o beneficio antes do prazo, abrindo margem a especulações.

Fato curioso permeou a televisão brasileira: imagens dos ‘miseráveis’ beneficiados pelo Bolsa-Família, gente bem vestida e bem saudável. Será que precisam? Teve até quem revelou que iria depositar na poupança... Uai, não é para matar a fome? De qualquer forma, não podemos deixar que esses fatos impeçam nossa visão de ver que temos muitos miseráveis. Mais até do que o governo divulga.

Quando Dilma foi eleita, 22,3 milhões de pessoas recebiam, entre seus ganhos e transferências do Estado, menos de R$ 70, valor que define a linha de miséria, conforme diz o Banco Mundial.

A presidente implementou aumentos. Há alguns meses o governo divulgou, com foguetório, que havia tirado 22 milhões de brasileiros da miséria.

Verdade? Claro que não! O que houve foi maquiagem promovida pela inflação. Os valores nominais aumentaram, mas como houve inflação, o limite de R$ 70 de 2011 não vale mais isso. Se corrigirmos pela inflação, deveria ser R$ 77,56 hoje (10,8% no IPCA). Quantos ‘miseráveis’ ganham menos que isso? Os mesmos 22 milhões que teriam deixado de ser miseráveis.

Como sabemos, a arrecadação federal sobe mais que a inflação, o governo gasta o mesmo que gastava antes (o real, corrigindo) mas anuncia que fez mais e tem quem acredita!

Talvez, até a oposição, que estranhamente, esperneia pouco...

O estabelecimento da linha de R$ 70 aconteceu em agosto de 2009. De lá para cá, a inflação foi de 23,4%, o que nos indica 27,3 milhões de miseráveis, mais do que Dilma recebeu de herança maldita do Lula. Ou seja, Dilma não tirou 22 milhões da miséria, mas jogou outros cinco milhões lá.

Ao invés de benefício, eu preferia ver frentes de trabalho, por exemplo, construindo cisternas no sertão. Enfim, o que dizer para esse governo que acredita na própria propaganda?

Mario Eugenio Saturno
Tecnologista do INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais

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