Não foi só a parte na herança do coronel que o motivou a se casar com Laurinda. Ela era moça feita, formosa, delicada e uma pele branquinha como leite. Criada para o lar, tinha todas as habilidades necessárias para uma boa esposa. Ele já completara trinta anos, pretendia constituir família. Quanto ao trabalho, experimentara várias atividades e nenhuma lhe agradara. Decidira-se casar com a neta do coronel, morar na propriedade do sogro e esperar...
Naquela comunidade onde vivia, a economia era de subsistência. Antes de a tecnologia chegar ao campo, cada família organizava suas terras, plantando, colhendo, criando animais domésticos, gado de leite e de corte e tudo o que fosse necessário para se viver bem, com fartura, e repassar o restante a terceiros, com lucros. Se as colheitas fossem boas sobrava até para comprar mais uns alqueires de terra e ir aumentando o patrimônio. Escolhidas as melhores faixas de terra, com sementes selecionadas e de qualidade, as primorosas lavouras eram cuidadas com amor e gosto. O mesmo ocorria na colheita, feita com capricho e arte. Os mantimentos para uso, depois de ensacados, eram entulhados em quantidade suficiente para alguns anos, caso as outras safras não fossem tão abundantes.
O nosso personagem, desanimado com a espera, já que o coronel estava bem de saúde, empreendendo novos negócios, ia usando de subterfúgios para sobreviver. Do sogro não tinha mais nada, além da casa e das terras. Resolvera, então, nas sombras da noite, buscar ajuda nas tulhas e terreiros dos parentes e compadres. Por um bom período ele abastecera sua casa e até vendera uma parte. A que mais apreciava era a lavoura de milho, pois este, depois de seco, era fácil de quebrar e ensacar. E as criações consumiam muito, portanto era bom estar prevenido. Nos encontros com os donos dos produtos subtraídos, portava-se com naturalidade e até especulava sobre o possível autor, dando mostras de seu caráter duvidoso.
Certa vez, não percebeu que os sacos de arroz que levara, furtivamente, tinham pequenos furos feitos pelos arames das cercas, e um caminho de grãos fora deixado no trajeto que ele percorrera. Facilmente os prejudicados encontraram o autor do furto. Houve até denúncia para o delegado e, depois de tudo acertado, ficou com fama de ladrão. Após muitos anos ,quando recebeu sua ínfima parte na herança, pois o coronel casara-se três vezes e tivera dezoito filhos, foi-se embora da região. Lá ele não conseguiria mais nada.
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