O menino, terceiro filho do casal, nasceu com defeito físico que exigiu cuidados e causou surpresa. Tinha o pênis parcialmente colado no saco escrotal, o que poderia impedi-lo de urinar feito gente grande, fazer apostas com os colegas de jorro a distância e, mais tarde prejudicar sua capacidade de gerar um filho na forma tradicional. Naquela época os partos eram feitos em casa. Alguém avisava a chegada do momento da délivrance, vinham tios, primos, com as tias, primas, maridos, mulheres e crianças. Enquanto a parturiente, eventualmente um médico e alguma curiosa assistiam ao parto, a mãe berrava, os convidados faziam festa na sala e na cozinha da casa, não raro com os biscoitos, sequilhos e doces que ela deixara preparado. Quando tudo acabava, os ‘convidados’ saiam a espalhar as novidades e detalhes do novo membro da família. No caso deste menino, a chance do terrível defeito se tornar público e prejudicá-lo na convivência com os demais era maior ainda: também naquele tempo o esdrúxulo e o fora dos padrões já eram mais chamativos que o normal. A mãe se apavorou. Imaginava o filho discriminado, ridicularizado. Fez promessa: não cortaria os cabelos do filho até que ele atingisse determinada idade. O motivo. Para ninguém descobrir o problema? Para que desaparecesse? Ela jamais revelou a razão, qual milagre buscava ou comentou o defeito físico do filho. Com ninguém. Conforme era costume, fotografou-o todos os anos no seu aniversário, mesmo com os cabelos fora de padrão para a época. Um dia ele apareceu sem os cachos. Nunca se soube se a graça - nem qual graça - foi alcançada. Porém alguns anos mais tarde ele se casou e teve filhos. Nunca se soube, também, se venceu concurso de jorro a distância. Morreu careca.
(Lúcia H. M. Brigagão)
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