“Eu quero viver e ver meus filhos crescerem.” A justificativa da costureira Elenilda Santos de Castro, 39, para a decisão de retirar o seio direito e se prevenir do câncer de mama - que já havia comprometido o esquerdo - é quase idêntica à de Angelina Jolie. No mês passado, a atriz anunciou ter optado por uma mastectomia dupla (retirada dos dois seios), também preventiva. Ainda em tratamento contra o câncer de mama, Elenilda sonha ver seus três filhos - Itálo, 9, e os gêmeos Henrique e Maísa, 6 - chegarem à adolescência. “Brinco com meus filhos que acho barba muito bonito. Então, gostaria de, quando eles forem moços, poder passar a mão na barba deles. Hoje, penso se vou conseguir chegar até lá.”
Entre o diagnóstico até a cirurgia, se passaram dois meses e meio, que, para a costureira, foram marcados por angústias, medos e decepções. O que a manteve determinada em realizar a cirurgia era o desejo de se curar.
Ela descobriu que estava com câncer por acaso. Ao se deitar na cama um dia, levou a mão ao seio esquerdo e sentiu um caroço. O resultado aterrorizante só viria um mês depois: Elenilda estava com câncer de mama. “O doutor Alberto [Magrin, mastologista] me falou que precisaria retirar uma mama inteira, o que me daria próximo de 100% de cura. Aceitei porque quis amenizar o problema, mas tirar o seio inteiro é traumatizante. Você sente a sua vida ser roubada”, afirmou.
Mas o principal desafio de Elenilda só começaria após ela ter aceitado retirar o seio esquerdo. Em nova consulta com Magrin, ele sugeriu a mastectomia preventiva (profilática) da outra mama. “As chances do câncer aparecer na direita também existia, e era de quase 100%. Para evitar o sofrimento [com tratamento do câncer] tudo de novo, optei por tirar”, disse.
Foi nesse ponto que Angelina Jolie entrou na sua vida. “Quando apareceu a reportagem da televisão sobre a atriz, já tinha decidido tirar a outra mama, mas me senti mais impulsionada, e a Angelina me deu força”, diz Elenilda.
A cirurgia, que retirou ambos os seios da costureira e logo em seguida os reconstruiu, ocorreu na semana passada, e ela passa bem. Agora, as chances do câncer aparecer no seu seio direito baixaram de quase 100% para 10%.
Contudo, as próteses a incomodam. “Ainda não as acho bonitas, apesar delas serem um alicerce. Se ficar vazio, sem nada, é mais triste. Mas vejo como uma máscara para a minha doença, porque ela ainda está ali atrás. Só vou achar meus seios bonitos e o sofrimento só terá valido a pena, quando eu me curar, receber o diagnóstico de cura.”
Mesmo com tanta perseverança, ainda falta mais um obstáculo para Elenilda ultrapassar: aguentar seis meses de quimioterapia e radioterapia.
Só no ano passado, o Hospital do Câncer de Franca realizou 36.813 atendimentos. Destes, 427 foram dedicados à mastologia. De acordo com o Inca (Instituto Nacional de Câncer), as estimativas da doença são de 52 casos de câncer de mama para cada 100 mil mulheres. Ainda segundo o instituto, surgiram 52.680 novas ocorrências da doença no Brasil em 2012.
ANGELINA
A atriz Angelina Jolie surpreendeu o mundo no dia 14 de maio, quando um artigo seu, intitulado “Minha escolha médica”, foi publicado no jornal The New York Times. No texto, ela revela que retirou os dois seios para garantir mais tempo com os filhos. Ela é portadora de um gene defeituoso, o BRCA1, que eleva para 87% a possibilidade dela ter câncer de mama e para 50% o de ovário. Agora, as chances dela ter câncer de mama caíram para menos de 5%.
“Posso dizer aos meus filhos que eles não precisam ter medo de me perder para o câncer”, disse a atriz no artigo. O gene já vitimou sua mãe, com um câncer de ovário - ela morreu aos 56 anos, e, no último dia 26, a sua tia materna morreu de câncer de mama.
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