Freadas bruscas, chacoalhões, respostas ríspidas e alta velocidade. Os cerca de 80 mil francanos que pagam R$ 2,80 para usar o transporte público coletivo de Franca, oferecido pela Empresa São José, reclamam que não têm “vida fácil”. Segundo reclamações de usuários, os problemas descritos no início do texto são rotineiros. De acordo com a direção da São José, 45 reclamações chegam todos os meses a empresa.
E não são apenas os passageiros que reclamam do comportamento dos motoristas. Quem dirige na cidade por várias vezes já viu ônibus cortarem a frente de carros e motos ao sair dos pontos, sem aguardar que a passagem fique livre. Na manhã do dia 20 do mês passado, um cabo da Polícia Militar foi atropelado por um motorista da Empresa São José no Jardim Pulicano. No relato que prestou aos policiais do 5º Distrito Policial, o policial disse que estacionou seu veículo e, ao descer, surgiu o ônibus em alta velocidade e lhe atingiu no braço direito. Com a batida, ele acabou caindo no asfalto. O motorista do ônibus fugiu sem prestar socorro.
A reportagem do Comércio testou o transporte coletivo oferecido em Franca. Por volta das 7 horas do dia 12 de abril, num ponto da avenida Eliza Verzola Gosuen, o repórter embarcou no ônibus. Logo de cara, o cobrador da linha Jardim Noêmia foi encontrado dormindo. Confuso, o jornalista se dirigiu ao motorista, que respondeu com bom humor e sinalizou que o fato parece ser comum: “Dá uns tapinhas que ele acorda.” Algumas pessoas riram da cena. O motorista foi cauteloso no trajeto, mas o sono do outro funcionário continuava.
No ônibus lotado, estava a analista de crédito Ana Carolina Ferreira, 19, moradora no Jardim Ângela Rosa. Todos os dias, ela vai e volta do trabalho, no Centro, usando o transporte público. Segundo ela, o motorista sempre corre com o veículo e o cobrador, quase sempre, está dormindo. “Como eu uso cartão, deixo ele dormindo e passo.” Ela diz que, pela passagem ser cara, o serviço deveria ter maior qualidade. Ela relembrou um caso extremo. “Teve um dia que um menininho estava sentado, a mãe desceu e ele ficou para trás. A hora em que ele foi, a porta quase fechou nele. Chegou a pegar no braço dele”, contou Ana. Outros passageiros narram que a porta já foi acionada pelo motorista para fechar antes que descessem.
No mesmo veículo estava a diarista Maria de Lurdes da Silva, 45, do Jardim Noêmia, que toma dois ônibus para chegar ao trabalho. Em algumas ocasiões, já teve que lidar com a falta de educação de cobradores e motoristas. “Não são todos, mas alguns são muito mal educados, correm demais. Às vezes as pessoas até brigam porque eles estão correndo demais.” A diarista, inclusive, já se feriu durante uma das viagens. “Teve uma vez que peguei o ônibus na Estação e quando subi na porta, eles fecharam. Fiquei prensada.” Em 20 minutos, a reportagem chegou ao Terminal “Ayrton Senna”.
BURACOS DA NORTE
Às 7h50, o Comércio seguiu viagem rumo à zona norte, desta vez, na linha Jardim Portinari. O ônibus não parava de fazer barulho. Portas, bancos e assoalho pareciam que desmanchariam. Tudo porquê o asfalto da região apresenta vários buracos. Não tem como escapar. Quem teve o azar de seguir viagem em pé, teve que se segurar. E segundo o chefe de fábrica aposentado Carlos Alberto Orsini, 70, do Parque dos Pinhais, a cena é comum. “Tem certos motoristas que freiam o ônibus de forma muito brusca, o povo balança muito dentro do ônibus. Nunca caí, mas é difícil de segurar”, reclamou Orsini.
A cozinheira Maria Augusta Prado de Oliveira, 62, do Leporace II, que voltava do trabalho, na zona sul, na linha Portinari, adorou a contratação das 50 mulheres para cobradoras e duas motoristas nos ônibus da São José, e disse que o atendimento melhorou com a presença delas. “Elas são melhores para lidar”, elogiou.
ESTRESSE
Morador no Jardim Tropical, o artista plástico Mário Cezar de Sousa, 41, é ex-fuzileiro naval e se formou na Academia Imperial de Belas Artes, no Rio de Janeiro, onde morou por mais de dez anos. Sousa diz que, quem conhece o transporte público do Rio, não reclama do da cidade. “Lá é horrível, não é igual Franca não”, disse o artista.
Para Mário, o nervosismo, tanto dos funcionários como dos passageiros, é a grande causa dos conflitos.
O preço da passagem do transporte público francano, que já é considerado “salgado” pelos usuários, ficará ainda maior. A direção da Empresa São José oficiou pedido ao prefeito Alexandre Ferreira (PSDB) de reajuste. Segundo apurado pelo Comércio, o valor pedido é de R$ 3,85. A proposta ainda está em estudo na Prefeitura.
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