Era 15h30 da última terça-feira, quando Rafael, 16, (nome fictício) acordou. Com o rosto machucado, não quis conversar. Só depois de ouvir sua mãe narrando a luta que tem travado por sua vida, resolveu sentar-se à mesa e contar sobre como tem sido seus dias.
Rafael começou a usar drogas quando tinha 12 anos. Da maconha, passou para cocaína e, menos de um ano depois, começou a usar crack. Já esteve internado em clínicas e casas de recuperação por três vezes. O tempo máximo que conseguiu resistir às drogas foi dois meses. Desde a última recaída, em março, seus dias são dedicados exclusivamente ao consumo do crack.
Comércio da Franca - Você está machucado e correndo risco de ser morto. Por que continua saindo na rua? Não pensa nas consequências?
Rafael - Não penso. Só saio.
Comércio - Como você se imagina no futuro?
Rafael - Não penso em nada. Só penso nela. Só na droga.
Comércio - São quase 16 horas. Você acabou de acordar. No que está pensando?
Rafael - Em fumar. Em arranjar dinheiro para comprar pedra [crack].
Comércio - Mas você não tem esse dinheiro nem sua mãe. Como vai conseguir?
Rafael - Vou roubar das pessoas na rua. Vou manobrar.
Comércio - Mas os traficantes já te espancaram. Você foi ameaçado. Não tem medo de morrer?
Rafael - Não tenho medo de nada.
Comércio - Nem pela sua mãe. Ela está sofrendo.
Rafael - É muito difícil. Mas a droga fala mais alto.
Comércio - Você tem amigos? Namorada?
Rafael - Não. Ninguém conversa comigo. Nem na minha família.
Comércio - Por que?
Rafael - Porque eu já roubei todo mundo.
Comércio - Quando passa o efeito do crack, como agora, o que você sente?
Rafael - Tristeza, muita tristeza.
Comércio - E como você lida com essa tristeza?
Rafael - Quero usar droga de novo. Não tem jeito.
Comércio - Você acha que se for internado vai conseguir se recuperar deste vício?
Rafael - Eu que tenho que querer me livrar das drogas. É difícil. Eu acho que vou conseguir.
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