Traficantes ameaçam matar jovem de 16 anos e mãe implora ajuda


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Mãe de adolescente de 16 anos é vista por janelas com vidros que ele quebrou quando teve alucinações sob efeito de crack
Mãe de adolescente de 16 anos é vista por janelas com vidros que ele quebrou quando teve alucinações sob efeito de crack

Os olhos cansados de chorar não conseguem desviar do relógio. A cada hora que passa, o coração palpita. No pequeno cômodo sem acabamento, Ana Maria*, uma ex-pespontadeira de 41 anos, que mora na zona oeste da cidade, reza. Ana é mãe de Rafael*, um adolescente de 16 anos viciado em crack e ameaçado de morte por traficantes. Ela tem até a noite da próxima quarta-feira para salvar a vida de seu filho.

Sem dinheiro para comprar drogas, o garoto resolveu fazer o que, na gíria do tráfico, é conhecido como manobra. Ele engana consumidores que vão em carros comprar maconha ou cocaína em biqueiras no bairro onde mora. “Em vez de maconha, ele embrulha folhas de árvores e terra. No lugar de cocaína, coloca qualquer pó branco. Pega o dinheiro dos usuários e some”, conta a mãe.

A prática acabou afetando os “negócios” dos traficantes, que agora o proibiram de sair na rua e, no último dia 21, entraram na casa de Ana e deram o ultimato. “Eles invadiram aqui, bateram no meu filho e deram 15 dias para tirar ele daqui se não vão matá-lo.”

Do prazo, faltam apenas três dias. “Não durmo nem como. A qualquer barulho, imagino que são eles chegando para levar meu menino. Fiz tudo o que podia, mas não adiantou. Ajoelho e rezo.”

Desde que recebeu a “visita” dos traficantes, Ana percorreu diversos órgãos públicos em busca de ajuda. “Só não fui à polícia porque [os traficantes] falaram que se fosse matariam a família.”

Sem parentes que aceitem ajudá-la, a única solução que restou foi a internação do garoto em uma instituição para tratamento contra o vício. “O problema é que não tenho como pagar.”

A primeira porta em que Ana bateu foi a do Conselho Tutelar. Lá, Rafael já havia sido atendido por conta do histórico de uso de drogas. “Achei que podiam me ajudar.” Os conselheiros tentaram intervir. “Não temos competência para fazer uma internação compulsória. Então, como o caso é muito grave, encaminhamos para a Promotoria”, disse o conselheiro Marcelo Mambrini.

Mesmo com todos os documentos exigidos, na Promotoria da Infância e Juventude, Ana não conseguiu ajuda. “O promotor pediu que eu procurasse a Defensoria Pública.” No dia 22, Ana foi recebida na Defensoria. “Entreguei todos os documentos, a carta do Conselho Tutelar e os laudos psiquiátricos, mas até agora nada foi feito. A vida do meu filho está em risco.”

Ana é o retrato do desespero. Não consegue contar seu drama sem tremer e chorar. “Não quero que meu filho morra”, disse ela.

Para agravar a situação, Rafael, que segundo os laudos médicos tem uma dependência severa do crack, não obedece a ordem dos traficantes de não sair. “Ele não fica sem a droga. Mesmo implorando para ele ficar, ele sai. E quando volta, está sempre machucado porque batem nele.”

DURA REALIDADE
No Conselho Tutelar de Franca, histórias como a de Rafael são comuns. Os dados mostram que o número de adolescentes viciados que precisam de tratamento, seja em hospitais especializados ou em casas de recuperação, vem crescendo. Só nos primeiros quatro meses deste ano, 55 adolescentes foram encaminhados para se tratarem. “O número alto. Todos precisam de atenção, mas nem sempre conseguimos a resposta adequada do Poder Público”, disse Mambrini.

Ao atender este tipo de caso, o Conselho faz os encaminhamentos. “Quando a dependência não é tão severa, encaminhamos para casas de recuperação ou os serviços municipais de Saúde. Nos casos graves, recomendamos a Defensoria Pública para solicitar a internação compulsória. Como a situação do Rafael é séria, encaminhamos direto para a Promotoria”, disse a conselheira tutelar Gláucia Limonti.

Mesmo com o encaminhamento, Ana não conseguiu ajuda. “Não vou desistir do meu filho.”

(*nomes fictícios para preservar a identidade dos entrevistados)

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