‘Muitos tiros nos pés não eram necessários’, diz Daniel Radaeli


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O delegado e vereador Daniel Radaeli defende o trabalho em equipe: “Uma boa conversa resolve muitas situações.”
O delegado e vereador Daniel Radaeli defende o trabalho em equipe: “Uma boa conversa resolve muitas situações.”

Aos oito anos, Daniel Paulo Radaeli já dava expediente todos os dias na Prefeitura de Restinga, cidade onde nasceu. Era guardinha mirim e fazia pequenos serviços burocráticos, dando sequência aos passos do pai, que foi o segundo funcionário público na história do município. O menino cresceu, se transformou num dos mais respeitados homens da Polícia Civil e ganhou duas eleições em cidades diferentes.

O policial detém outro feito que provavelmente poucos conseguiram. Aos 48 anos, acaba de completar 40 como servidor público reconhecidos pelo Supremo Tribunal Federal. Ele reúne tempo suficiente para se aposentar, mas descarta a possibilidade de não mais mais sacar a arma. Pendurar o paletó que veste na Câmara, nem pensar.

Radaeli mudou-se para Franca aos 14 anos. Há 22, tornou-se delegado de polícia. Escolheu começar a carreira em Restinga, onde um dia se orgulhou de vestir o uniforme da Guarda Mirim. A atuação como policial rendeu projeção. Decidiu entrar para a política. Na primeira tentativa, foi o vereador mais votado - com quase 400 votos - em Restinga para a legislatura 97/2000.

O policial trocou a delegacia de Restinga por unidades maiores em Franca. Mais tarde, também trocaria de Câmara. Radaeli passou pelos principais distritos policiais da cidade. Hoje, é titular da DIG, unidade responsável por esclarecer crimes. Também é o chefe do Centro de Inteligência da Polícia Civil.

Nas eleições do ano passado, Radaeli candidatou-se a vereador pelo PMDB em Franca, mesmo partido pelo qual havia sido eleito em Restinga há 15 anos. Foi o único a garantir uma cadeira pela legenda na Câmara Municipal. Teve 2.588 votos.

A característica de delegado linha dura das delegacias tem se refletido no Poder Legislativo. Apesar de integrante do principal partido que firmou aliança com os tucanos na disputa pela sucessão municipal e membro da base aliada, Radaeli tem levantado a voz contra o prefeito Alexandre Ferreira (PSDB). Afirmou que não vai mais “engolir sapos” do Executivo e se recusou a participar de reuniões no gabinete para discutir o veto proposto por Alexandre ao plano de cargos e salários dos servidores da Câmara. Na semana passada, ele recebeu o Comércio para falar de suas atividades policiais e, claro, das relações com o prefeito.

Comércio da Franca - O senhor poderá entrar para o livro dos recordes como o servidor público mais jovem com o maior tempo de contribuição. Como isto foi possível?
Daniel Radaeli -
Comecei a trabalhar como guardinha mirim aos oitos anos em Restinga, convidado pelo Guido Betarelo [ex-delegado]. Consegui contar este tempo, comprovar com documentos e, por decisão do Supremo Tribunal Federal, fez-se a contagem do tempo e como serviço público, pois trabalhava na Prefeitura. No dia 7 de maio, completei 40 anos de serviço público. Também trabalhei na 2ª Vara Cível do Fórum de Franca e na rádio Difusora, narrando basquete.

Comércio - De guardinha mirim, o senhor se transformou no delegado-titular da DIG e no chefe do Centro de Inteligência da Polícia Civil. Como define sua carreira?
Radaeli -
É uma carreira de sucesso, mas resultado de muito trabalho. O trabalho enobrece. Você não tem que ficar sentado esperando acontecer. É preciso correr atrás com justiça, ter objetivo, fazer o que tem que fazer e procurar se aperfeiçoar sempre. O resto é consequência.

Comércio - O senhor já reuniu tempo suficiente para pendurar o paletó ou guardar a arma na gaveta. Como está a ideia de se aposentar?
Radaeli -
Por enquanto não. Até pensava em me aposentar, mas sou jovem ainda e tenho saúde. Agora que estou vendo mudanças pontuais naquilo que a gente pensava lá atrás no começo da carreira policial, acredito que tenho muito tempo para fazer um trabalho de alto nível. Embora a violência tenha aumentado, os instrumentos para combatê-la também estão aumentando. A polícia, hoje, é muito mais científica e de inteligência do que aquela polícia bruta e antiga.

Comércio - Qual é a sua meta?
Radaeli -
Não almejo cargos de direção. Minha meta é trabalhar com as novas ferramentas que estão disponíveis. Polícia é igual sacerdócio, é igual cachaça. É muito gostoso investigar. Acho que todo ser humano é investigador por excelência. Todos querem saber o que aconteceu, onde e em que circunstância. Trabalho nisto e ganho para isto.

Comércio - Qual é o maior desafio da Polícia Civil?
Radaeli -
O desafio, não só da Polícia Civil, mas do mundo, são as drogas, combatê-las. Não houve investimento adequado na educação. Isto se reflete hoje na desestrutura da família e, consequentemente, no uso e consumo de entorpecentes. O tráfico aumenta, os dependentes químicos aumentam. O que a polícia tem que fazer é trabalhar com inteligência aliada com educação e ação social. É preciso uma batalha conjunta.

Comércio - O senhor lida com frequência com casos envolvendo roubos e assassinatos. Qual a relação das drogas nestes crimes?
Radaeli -
De acordo com o último levantamento que fizemos, 93% dos crimes estão relacionados ao consumo de entorpecentes. Coloco no meio das drogas ilícitas, as drogas lícitas, como o álcool.

Comércio - A insegurança é grande na cidade. O número de roubos violentos não para de crescer e a população se transformou em refém dos criminosos. O que o chefe da DIG pode falar a respeito?
Radaeli -
Antes de tudo, é preciso investir no trabalho preventivo. Isto se dá por meio da educação e na ação social. Tudo em conjunto com a segurança pública. Temos procurado fazer a nossa parte. Apesar do efetivo não ser o adequado, nosso índice de esclarecimento de crimes é alto. Temos mandado muitos criminosos para a cadeia. Por outro lado, estamos investindo em ferramentas novas. O nosso centro de inteligência é muito eficaz. Também estamos correndo atrás do vídeo-geo-monitoramento [moderno sistema de monitoramento da cidade por câmeras] para dar mais eficiência ao trabalho policial. Hoje, a tecnologia é uma forte aliada que não pode ser desprezada. Além do trabalho policial, é necessário pensar no tratamento dos dependentes químicos. Um dependente afeta em torno de 20 pessoas na família, ele arrebenta com a família. Se pegarmos este dependente e trazê-lo para o nosso lado com a ação social e tratamento, a situação será alterada.

Comércio - Além de ser reconhecido pela Justiça como servidor público desde os oito anos, o senhor também conseguiu outro feito interessante. Foi vereador em duas cidades. Primeiro, se elegeu em Restinga e, agora, em Franca...
Radaeli -
É uma questão de idealismo. Meu pai foi o segundo funcionário da Prefeitura de Restinga. Trabalhou como lixeiro, jardineiro e coveiro. Fui criado neste meio. Era uma cidade muito pobre e carente. Quando me formei delegado em São Paulo, fiz questão de assumir a delegacia de Restinga por uma questão pessoal. Via a situação social da cidade e queria fazer algo, não só como delegado, mas também na área social. Fui o vereador mais votado da época [97/2000]. Agora, consegui também me eleger em Franca, a cidade que me acolheu. Aos 14 anos, comecei a trabalhar no cartório do Juca Vilhena, que foi um segundo pai para mim. A atuação como delegado foi fundamental para a vitória nas urnas. Falo que a polícia é o termômetro social. Tudo o que não dá certo na sociedade vem para a polícia. A gente convive diariamente com as pendências sociais.

Comércio - Qual é mais prazeroso: ser vereador ou policial?
Radaeli -
Ambos, com prazeres diferentes. O projeto do vereador demanda muito mais tempo, não é tão rápido como fazer uma investigação. O vereador não depende só dele, depende de vários parceiros e da legislação vigente. O delegado de polícia depende da lei, mas tem nas mãos a investigação. É igual uma pescaria: você fica vários dias esperando acontecer para poder prender o criminoso. E quando acontece, dá uma satisfação pelo dever cumprido.

Comércio - Até que ponto a experiência como delegado tem ajudado o senhor na Câmara?
Radaeli -
Como disse, a polícia é o plantão das ações sociais que não deram certo. É um termômetro que nos ajuda a reduzir os problemas da sociedade na condição de político. Meu desafio como vereador será implantar o vídeo-geo-monitoramento na cidade, além de ampliar o atendimento e criar vagas para os dependentes químicos.

Comércio - O senhor foi eleito pelo PMDB, que formou a dobradinha com o PSDB em 2012. Apesar de ser da base aliada, o senhor tem votado contra projetos do Executivo, disse que não mais “engoliria sapos” vindos do prefeito e se recusou a participar de reuniões no gabinete para tratar dos benefícios dos servidores. O senhor é um aliado rebelde?
Radaeli -
Sou vereador independente. A partir do momento em que você assume uma postura em qualquer setor, é preciso ser justo. Tenho pensamento próprio. Caso contrário, não poderia estar representando o povo. Não é questão de querer brigar com o Executivo. O que for justo, vou defender.

Comércio - Na última sessão, o governo sofreu duas derrotas na Câmara. Viu a CEI do viaduto ser prorrogada e o veto ao projeto dos servidores ser derrubado. Faltou diálogo ou sobrou pressão?
Radaeli -
Não me senti pressionado. Na polícia, a gente toma decisões que mexem com a vida das pessoas a cada segundo. Como em qualquer situação, existe guerra de informações. Há três verdades: a minha, a sua e a verdade. Cada qual puxa para o seu lado. Nós temos que buscar a verdade real. Procurei me informar e tinha consciência do projeto dos servidores. Para evitar qualquer tipo de entrevero, não fui à reunião no gabinete. É preciso respeitar a opinião das pessoas. Gosto de trabalhar em equipe, já mudei muito de opinião após ouvir um investigador ou um escrivão que me convenceram de determinado fato. Estou aberto a isto desde que todos sentem-se à mesa e discutam o bem da sociedade. O diálogo sempre é a melhor alternativa. Muitos tiros nos pés não eram necessários. Uma boa conversa, uma boa prosa, como diria o meu pai, resolve muitas situações.

Comércio - Falando em pressão, já recebeu ameaças de morte?
Radaeli -
Temos um ranking dos mais ameaçados aqui na delegacia. Eu, o doutor Vanir [Silveira, delegado assistente da Seccional de Franca] e o Márcio Murari [ titular da DIG]. Isto é frequente. Para exercer uma função, você precisa ser justo, ter objetivo e não ter medo. Caso contrário, não seria delegado de polícia.

Comércio - Ao lado do vice-prefeito Fernando Baldochi, o senhor é uma das caras novas do envelhecido PMDB. Pensa em ser prefeito?
Radaeli -
Temos bons nomes, como o próprio Baldochi e o doutor Marcelo Caleiro. Hoje só penso na Câmara, mas sou um instrumento do partido. O jogo está aberto. Enquanto tivermos vida, saúde e objetivo, estamos prontos para defender as teses que temos em mente.

Comércio - Como avalia a administração Alexandre Ferreira?
Radaeli -
O prefeito fez muitas coisas, mas é cedo para uma avaliação ampla. Não sou contra o prefeito, sou contra atitudes. A gente deveria dialogar mais, pois temos a grande responsabilidade de administrar uma cidade de 320 mil habitantes. Vivemos em um grande condomínio e temos de resolver as necessidades reais deste condomínio.

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