Alguns patos desliz...


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Imaginação permite criar cenários, combinar ideias, produzir soluções, sem que ninguém nos ajuize, nos freie, nos castre. O problema é que estamos deixando esta rara habilidade treinável para lá

Em seu tradicional dicionário da Língua Portuguesa, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira diz que “i.ma.gi.na.ção é substantivo feminino que significa 1. Faculdade que tem o espírito de imaginar; fantasia; 2. Faculdade de criar mediante a combinação de ideias; 3. A coisa imaginada; 4. Criação, invenção, ideia; 5. Fantasia, devaneio.”

Lembro-me bem – e digo sempre aqui – de minhas professoras do primeiro e segundo anos primários, Noêmia Martha Bordignon, que me ensinou a tornar letras, depois palavras e, finalmente, frases, o que me passava pela cabeça; e Maria Marques, que, na sequência, me endereçou a somar frases para descrever cenários, e – imaginem! –, eu próprio inserido neles. Professoras como essas não tinham a internet, televisão, telão, imagens em 3D, livros e lousas digitais. Trabalhavam, porém, com a mais importante de todas as máquinas: o cérebro de seus alunos, e o que podíamos, elas e nós, extrair dele.

Não eram heroínas como nós as supunhamos, e sim, – como diziam – ‘só’ professoras que, por vocação, ensinavam os caminhos das maravilhas que palavras, frases, textos e livros escondiam de quem não era iniciado. Pena que aquele jeito de ensinar, voltado ao estímulo de nossas capacidades imaginárias, tenham acabado. A maioria das pessoas de hoje, não têm e nem exercitam a imaginação. São a geração digital, que, tem méritos – e falarei deles em um próximo texto – mas não constróem cenários mentais!

Tenho proposto a meus treinandos em Comunicação Verbal e Gestual que fechem os olhos e se deixem aprofundar na‘tela negra’ que suas mentes lhes apresentam.

Peço-lhes, então, que ‘desenhem’ na tela negra, em ‘tinta branca’, o número um. Sem que abram os olhos, peço que respondam se ‘veem’ o número que ‘desenham’. As respostas são relevadoras. Tem quem abre(!) os olhos para ‘ver’ o que ‘desenhou’... Tem quem vê, em todos os seus contornos, o número. Um, me descreveu que podia ver os ‘detalhes de sua letra ruim’, no número que tinha ‘desenhado’. E tem – juro – quem prefere não participar porque o ‘negrume onde não conseguia ‘desenhar’, metia medo’.

Pois bem. Não se trata de analisar, aqui, em detalhes, os resultados de experiência deste tipo. Apenas lembro que a geração digital, que é virtual por essência, perdeu, ou não desenvolveu a capacidade de criar cenários mentais. Isso é ruim, mas não a condeno. Quem tem a televisão, celulares, tablets e grande parafernália eletrônica por mestres – não d. Noêmia ou d. Maria Marques – consome imagens prontas! A gente olha na tela e vê tudo, em detalhes. Não é preciso completar, imaginar nada.

Claro que vou voltar também a este assunto. Enquanto isso, analise algumas das pessoas com as quais você convive. Conte uma história ou descreva uma cena qualquer. Depois, peça para que lhe conte, ou que comente. Perceberá que detalhes importantes serão desprezados. Se perguntar porque, vão dizer que este mundo é rápido, e tem que ser objetivo, que tempo não é para ser perdido. Oras...

CENAS BUCÓLICAS
Segundo ano primário. Escola “Cel. Francisco Martins”. D. Maria Marques aponta na porta da sala de aula. A gente se levanta, em respeito à professora. Ela se dirige à sua mesa. Senta-se. A um sinal seu, também nos sentamos. Ela faz a chamada. Houvesse uma mosca voando na sala, ouviríamos o bater de suas asas. Maria Marques se levanta. Aula de redação. Toma um cartucho de papel com fundo em tecido e o desenrola. Vemos gravura de uma cena rural, que ela pendura na lousa. Uma casinha, chaminé fumegante. Vários animais e aves em torno. Cerca, com alguns moirões caídos, outros intactos. Um pequena lagoa, alguns patos desliz... ôpa, ainda não tinha chegado a hora de deixar a imaginação nos colocar lá... Aguardavámos ansiosamente o momento em que ela comandaria: ‘Vamos à fazenda. Vamos nos divertir...’ Tenho saudade de minha velha professora...

VELHOS E VELHAS
Há amigos novos e amigos velhos. Há pessoas novas e pessoas velhas. Há casos novos e casos velhos. Leia de novo: há amigos novos e velhos amigos. Há pessoas novas e velhas pessoas. Há casos novos e velhos casos. Perceberam que na segunda construção, pode-se substituir velhos e velhas por saudade, respeito, boas lembranças, consideração? Meu pai era meu velho. Minha mãe é minha velha. Meus professores mais lembrados são meus velhos professores. Há professores novos, mas velhos. E há professores velhos, mas novos. Não os ‘aposentem’ em nome de pedagogias ou metodologias novas, senão, não haverá mais jeito!

É HOJE!
Vou hoje à Associação de Imprensa, Rádio e Televisão votar para que Antônio Carlos Fernandes, o Xaropinho, continue tocando a melhor administração que a entidade já teve. Nem é preciso imaginar. Será ainda melhor!

Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br

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