Medo é sentimento inerente ao ser humano. Temos medo de altura, de doença, de falar em público, da morte, de perder o status social, de animais, de amar, de ficar sozinho, de ser feliz etc.
O medo nos paralisa e é preciso ter coragem para enfrentá-lo. Como ter coragem diante de algo que nos causa medo? Coragem, podemos entender como agir com o coração, ou seja, entender o sentimento e agir de acordo com ele. O medo e a coragem estão na mesma linha de sentimento, na mesma matriz. Em alguns momentos ou fatos da vida o medo se apresenta. Em outros, a coragem, e vice-versa; ambos são necessários. O problema está no excesso.
Tudo que é sem fim é fonte de infelicidade. Tudo que é muito. ou pouco. é prejudicial. E sentimentos em excesso podem gerar violência. O medo do fracasso ou do sucesso pode levar a atos impensáveis. Estamos preocupados em ser reconhecido pelos outros e, nessa busca, somos destacados ou fracassados sob o olhar do outro. Um mesmo ato pode ser reconhecido como de coragem ou de medo. Ficamos pensativos com o fato da mãe adolescente ter ‘torturado’, ou ter permitido ‘tortura’ por parte do namorado à sua filha. Como pode uma ‘mãe’ causar sofrimento a filha? Proponho pensar nessa situação sob outra perspectiva, ou seja, o medo da felicidade.
Muitas pessoas que se amam, e tem tudo para manter uma relação afetiva por muitos anos, acabam se separando, e por motivos insignificantes; e, ao se separarem, acabam reatando. O medo de ser feliz pertence a todos nós. Quando estamos muitos felizes, batemos três vezes na madeira para não ter azar. Quantos usam amuletos e são supersticiosas para manter a ‘felicidade’. Desejamos sucesso, e, quando temos, começa a surgir medo da inveja.
O nascimento de um filho é acontecimento que gera sentimentos que vão da felicidade à preocupação, de como será a vida doravante ao que faremos para dar conta. Mudanças de plano, rearranjos pessoais e familiares são necessários e tudo isso gera tensão psíquica, incertezas, angústias..., medo. O próprio indivíduo é capaz de destruir, de sabotar parte da sua felicidade, já que há, em todos nós, também um sentimento de morte, de destruição. Esse mecanismo, destrutivo para alguns, tem origem no nascimento, na vida. O trauma do nascimento é ativado na puberdade e adolescência por variáveis culturais. Não é raro que fobias sejam desencadeadas por experiências traumáticas antes vividas.
A mãe que ‘torturou’ a filha cometeu um ato ‘inaceitável’, mas esquecemos que é uma adolescente, um ser em construção, com dificuldades de lidar com sentimentos ambíguos e confusos nessa fase de difícil trato. Pergunto-me: como será que essa ‘mãe’ está diante de toda a repercussão do ato praticado? Será que a agressão não é uma forma de autopunição? Deve ser presa ou cuidada? Quantos adultos, diante de situação extrema de felicidade, tomam remédio para dormir e dar conta dos sentimentos? O que é isso, senão mecanismo para lidar com o medo? Se a mãe tivesse ‘enfrentado o namorado’ estaríamos falando de coragem, mas como não teve, tachamos de perversa e torturadora. Será que ela apenas não agiu por medo do desconhecido, medo da felicidade que um(a) filho(a) pode trazer? A ‘tortura’ não é uma forma de medo de lidar com a vida, com o desconhecido, com a angústia?
Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário
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