“A buen hambre no hay pan duro”
Ditado espanhol
Acredito que a cozinha espanhola seja a mais rica entre as europeias. Isso porque o país se desdobra em vários, de acordo com suas diferentes regiões. Sua história milenar, com a presença de árabes e judeus dividindo pacificamente o espaço com os da terra, é um acúmulo fantástico de influências que, se estão eternizadas nos monumentos arquitetônicos de que o Alhambra é ícone máximo, também se fazem sentir numa culinária olorosa, de texturas sofisticadas e cores que apelam às papilas gustativas. Muitos frutos do mar nas comunidades litorâneas. Muita carne suína no interior. Legumes em abundância por toda parte. E mais o azeite de oliva que está entre os melhores do mundo, o pão de miolo denso e perfumado, as azeitonas, toda a variedade criativa de tapas, os mil acompanhamentos do aperitivo, em geral jerez, tomado antes do jantar. Muitos itens. Muita qualidade. A culinária hispânica é extensa em itens e soberba em qualidade.
Caldo galego e empanadas na Galícia; marmitaco nas Astúrias; menestras com espárragos, alcachofras, guisantes e habas em Navarra; o flamenquín, a pringá, a alboronía, os gurumelos da caliente Andalucía; asados de ternasco e migas de pastor no antigo reino de Aragão; ensaimadas, sobrasadas e arròs brut das Baleares; as papas arrugadas das Canárias; as fabes com amasuelas ou almejas das Astúrias; o cocido montañés e o lebaniego preparados com o compango proveniente do matacíu del chon (matança do porco, como acontecia no Brasil rural) na Cantábria; o suquet, a escudella, os calçots da Catalunha; a odra podrida e os embutidos de cerdo ibérico da Estremadura, região já próxima de Portugal e suscetível à troca de influências; o zarangollo de Múrcia; a paella de Valencia; o cochinillo de Segovia e a morcilla de Burgos na região de Castela e Leão.
Destaquei apenas a centésima parte deste cardápio pantagruélico, deixando para o final Castilla-la-Mancha, região que visitei há alguns anos ao buscar conhecer a cidade onde nasceu Miguel de Cervantes, a linda e antiquíssima Alcalá de Henares, com praça central cercada de prédios do século XVI e repleta de roseiras. Perfeitamente preservada como devem ser as relíquias de um lugar que viu nascer obra literária de caráter universal, Don Quijote de la Mancha, o iniciador do romance moderno. Pois muitas das comidas típicas de Castilla-la Mancha foram divulgadas por este livro imenso, que ao fazer a crítica da novela de cavalaria, inaugurou em língua espanhola novo gênero literário.
Apesar de La Mancha ser apenas uma parte de grande comunidade, muitos pratos típicos levam o adjetivo de pertencimento como o pisto manchego (espécie do ratatouille francês), refogado de legumes; o gaspacho manchego, sopa fria de tomates; o asadillo de La Mancha (outro prato vegetariano que tem como ingrediente principal o pimentão vermelho assado no forno); o queso de La Mancha, o azafrán de La Mancha. Trouxe para o leitor algo que comi por lá e achei gostoso, talvez porque estivesse com muita fome, e esta, como se sabe desde sempre, é o melhor tempero para qualquer comida. Achei superinteressante transformar omeletes em quadradinhos e intercalá-los com tomates. Os que devorei eram muito doces e vermelhos, cortados com pele mas sem sementes. Ocorreu-me usar os tomatinhos que aqui são vendidos em caixinhas, e já aparecem menores que os do tipo cereja. Achei que deu certo.
É muito fácil fazer este prato que pode ser servido no lanche ou substituir o jantar. Ele é composto por uma omelete, na verdade uma fritada assada, que depois de fria se corta em quadradinhos que são alternados com os tomates no espeto. Os ingredientes listados são suficientes para seis pessoas.
Ingredientes
1 pimentão vermelho em tirinhas
1 pimentão verde em tirinhas
1 cebola branca grande em rodelas
2 colheres (sopa) de azeite
25 gramas de manteiga
200 gramas de queijo provolone ralado
6 ovos
1 pitada de páprica em pó
1 pitada de noz-moscada moída
150 ml de creme de leite
Sal, pimenta
20 tomatinhos-cereja

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