Sonho e pesadelo


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O Brasil tem um PIB de dois trilhões e meio e deve ocupar o posto de sexta economia do planeta, mas, nem por isso, é um País rico, que pode desperdiçar investimentos. Erros básicos em pontos estratégicos, como energia, podem comprometer o futuro. Veja-se o que o governo federal faz: aposta no petróleo do pré-sal e esquece-se do etanol de cana de açúcar. Loucura total!

Produzimos etanol em escala para abastecer milhões de carros há 40 anos, com tecnologia nacional no plantio e produção. Beneficia-se produtores e agricultores, e o lucro é certo! O pré-sal, que beneficiará pouquíssimos produtores, ainda não tem tecnologia pronta e custos previstos altos, é lucro incerto! O governo deveria investir, também, em outra fonte de energia renovável: o biodiesel, mas, por limitação ideológica, força o biodiesel somente à agricultura familiar, acabando com essa opção interessante.

Observe-se a imensa quantidade de óleo de fritura que as famílias jogam no esgoto, criando poluição desnecessária. Poderia ser coletado e transformado em biodiesel. E a gordura animal, de abatedouros e matadouros? Mais biodiesel... Tudo é tratado apenas como possibilidade potencial, já que o governo não se interessa. Prefere o pré-sal, e seus vultuosos investimentos!

Enquanto megalomaníacos sonham com o pré-sal, os Estados Unidos mostrou seu extremo faro: estão criando alternativa fantástica com o gás de xisto, gerado por uma nova tecnologia, o fraturamento terrestre em formações de xisto. Começou há cinco anos e já mostra resultados.

O preço do gás americano, que custava US$ 9 por milhão de BTU (unidade térmica britânica), caiu para US$ 1,82 no ano passado. Hoje, o preço fica entre US$ 2,5 a US$ 3 por milhão de BTU. Na Europa, o gás custa entre US$ 8 e US$ 10 e no Brasil, de US$ 12 a US$ 16. Os Estados Unidos deixaram de ser grande importador de gás e, podem até exportar, algo inimaginável em 2008.

Trata-se de mudança de cenário surpreendente para indústrias que usam gás como matéria-prima. O governo brasileiro ainda não acordou. E veja que quem entrou no gás natural, entrou porque era mais vantajoso. O problema é que até 35% dos custos industriais são de gás, em empresas do ramo de cerâmica, vidro e química, que perderam competitividade.

A Associação Nacional dos Fabricantes de Cerâmica para Revestimentos (Anfacer) alerta que as importações do setor subiram 9 mil por cento nos últimos sete anos. Também as empresas Braskem, Unigel e Dow Chemical paralisaram investimento de bilhões de dólares. A multinacional do setor de vidros AGC investiu R$ 800 milhões em uma fábrica, mas, nos últimos três anos o preço do gás dobrou e a empresa desistiu de fazer outro investimento planejado, na faixa de R$ 800 milhões!

O Brasil também tem reservas de gás de xisto, estimadas em 6,4 trilhões de metros cúbicos. Somos a décima reserva mundial. A China tem as maiores reservas: 36 trilhões de metros cúbicos, seguida pelos Estados Unidos, com 24 trilhões. Para assustar os brasileiros, os norte-americanos preparam-se para investir em biodiesel. Vai desbancar o Brasil, tal como aconteceu com a produção de etanol.

Mario Eugenio Saturno
Tecnologista do INPI – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais

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