O jogo que definirá o campeão paulista de futebol da temporada, envolvendo Santos e Corinthians, na tarde deste domingo, suscita uma série de reflexões e nenhuma delas, infelizmente, positiva. O esporte número um no coração do torcedor brasileiro deixou de ser, há muitos anos, símbolo de congraçamento, solidariedade e torcida. Hoje — e exemplos recentes mostram isso — não se consegue mais dissociar o futebol da violência, já que os jogos (e as preferências clubistas) se transformaram em verdadeiras arenas: enquanto os jogadores correm dentro de campo em busca da vitória, torcedores rivais enfrentam-se nas arquibancadas, levando a pancadaria muitas vezes para além dos muros dos estádios, causando vítimas — algumas delas fatais.
Exemplos recentes mostram bem a situação. Nos últimos anos multiplicam-se as ocorrências protagonizadas por torcedores rivais envolvidos em assassinatos, com justificativas tão sem propósito que causam indignação. Afinal, a atualidade mostra que não há notícia de que as providências tomadas nos últimos anos para combater esta violência desmedida tenham surtido algum efeito prático. Não há cidade neste País que tenha passado incólume. A paixão que o futebol e os seus clubes despertam é um fato que ninguém pode negar. Mas quando ultrapassa esta linha, tornando-se desmedida, passa a ser preocupante na medida em que hoje a simples ida a um estádio de futebol pode ser uma sentença de morte.
A recente prisão de 12 torcedores do Corinthians na Bolívia mostra bem esta situação. O sinalizador usado por um corintiano atingiu a cabeça de um rapaz de apenas 14 anos, causando sua morte. Torcer, vibrar e festejar já não bastam: a pirotecnia que hoje envolve o ato de acompanhar o time dentro do estádio exige mais, até um artefato mortal se utilizado por mãos inábeis, como aconteceu neste caso. E os fatos se repetem fora do palco dos jogos: as mortes registradas durante confrontos entre torcedores de equipes rivais se multiplicam pelas ruas das cidades de todo o País, sem que haja qualquer vislumbre de uma solução que leve a paz aos estádios. Campanhas são feitas, a mídia registra os alertas, mas não parte da pequena minoria causadora das confusões qualquer sinal de pacificação.
Por tudo isso, neste domingo a Polícia Militar de Franca já trabalha em estado de prontidão por causa da decisão. A partir do início do jogo, um trecho da avenida Champagnat (usualmente utilizado para comemorações de vitórias e títulos de clubes e seleção brasileira de futebol) receberá reforço no policiamento, que busca impedir a repetição do que já aconteceu em circunstâncias anteriores. A própria PM alega que tumultos e confrontos registrados em outras ocasiões exigem que a providência seja tomada. Em razão da sequência de bares e restaurantes naquele trecho, toda cautela é pouca. Da forma como vem acontecendo, o perigo é que a situação descambe para algo mais grave que, se não for prevenido, dificilmente poderá ser remediado.
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