A morte do curtumeiro Marco Rodrigues de Alencar, de 43 anos, após despencar do telhado de uma indústria de calçados e tocar nos fios de alta tensão na semana passada é o reflexo de uma realidade comum na cidade. Em três novos loteamentos espalhados por Franca, mais de dez profissionais ou pessoas fazendo “bicos” foram flagrados realizando serviços em telhados, andaimes ou postes sem qualquer equipamento de proteção contra acidentes. São homens que arriscam suas vidas e apostam na experiência e na sorte para que não sofram acidentes.
Não há dados sobre o número de francanos trabalhando informalmente em pequenas obras ou reformas. Mas, segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil, Jaime Plácido, é uma quantidade alta. “Não temos estatísticas a respeito. Mas é uma prática muito comum uma pessoa contratar um pedreiro ou pintor e não fazer o registro disso em contrato ou carteira de trabalho, o que é irregular.”
Luís Aparecido da Silva, de 53 anos, há 37 trabalha como “faz tudo” em pequenas obras. “Sei mexer com pintura, acabamento, com serviços de eletricista e encanador. Faço de tudo um pouco.” Na tarde de terça-feira, ele estava retirando as telhas do telhado de uma casa no Residencial Primo Meneghetti sem qualquer equipamento de segurança. “Sou experiente. Não vejo necessidade de usar toda aquela tralha.”
Mesmo sofrendo de labirintite, ele disse que são raras as ocasiões em que resolve colocar o capacete ou o cinto de proteção contra quedas. “Só uso mesmo quando vejo que o serviço é muito perigoso.” Ele tem todos os equipamentos em casa e conhece o uso deles. Questionado sobre o fato de estar colocando sua vida em risco, Luís disse confiar em sua experiência profissional. “Não sou imprudente. Se sinto que não estou bem, eu não me arrisco. Em 37 anos de trabalho, nunca sofri um acidente.”
Luís disse que nunca foi fiscalizado pelo Ministério do Trabalho ou pelo Sindicato dos Trabalhadores da Construção quanto ao uso dos equipamentos de segurança.
Outro pedreiro flagrado que pediu para não ser identificado também admitiu ignorar as normas de segurança que aprendeu nos cursos técnicos que fez para trabalhar. “São poucas as vezes em que trabalho em grandes alturas. E sei os meus limites. Sei até onde posso ir, sei o que aguenta o meu peso. Sou experiente, sei o que estou fazendo. Não vejo necessidade de usar todos os equipamentos”, disse ele, que trabalha como autônomo há 15 anos. Na terça-feira, ele estava trabalhando em cima de um cavalete ajudando a repassar tijolos sem qualquer proteção.
Apesar de não usar os equipamentos de segurança, ele disse ter medo de acidentes. “Claro que me preocupo. Mas a maior parte dos acidentes acontece quando o cara está fazendo um bico. Não é profissional como eu.”
Em 15 anos de trabalho, ele também nunca foi fiscalizado sobre o uso de equipamentos de segurança. “Eu é que decido quando usar ou não”.
Segundo o delegado do Ministério do Trabalho em Franca, Jamil Leonardi, não há uma lei que regulamente a segurança do trabalho quando este envolve um trabalhador autônomo ou estipule a responsabilidade pela fiscalização.
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