Lula Ferreira vislumbra nova meta: resgatar o ‘DNA de campeão’


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O técnico Lula Ferreira na sala de troféus do Franca Basquete. Objetivo é trazer para este lugar sua primeira taça como comandante do time
O técnico Lula Ferreira na sala de troféus do Franca Basquete. Objetivo é trazer para este lugar sua primeira taça como comandante do time

Aluísio Elias Xavier Ferreira, 62, ou simplesmente Lula Ferreira, foi contratado na temporada passada com o objetivo de comandar um trabalho de reformulação no basquete de Franca privilegiando não só a equipe adulta, mas também o projeto de formação de atletas. O primeiro passo foi dado. O Vivo/Franca chegou aos playoffs finais do Campeonato Paulista e do Novo Basquete Brasil, mas nas duas competições, o time caiu nas quartas de final. Mesmo com a eliminação, o trabalho foi reconhecido pela cidade. Entretanto, os objetivos de Lula Ferreira não param por aqui. O treinador espera resgatar a tradição do clube e brigar por títulos. A última conquista do time foi em 2008, na disputa da Supercopa.

A aposta de Lula Ferreira está no Campeonato Paulista, que se inicia em agosto. Para o comandante francano, o grupo adquiriu um “lastro” para ser apontado como um dos candidatos ao título do estadual. A confiança foi adquirida através da “doutrina de jogo”, imposta pelo treinador, de ter uma defesa forte, um contra-ataque rápido e mortal, além do jogo coletivo no ataque.

De férias, o treinador espera pela permanência da maioria do time para a próxima temporada para poder dar sequência ao trabalho. A expectativa é sobre o trio de sustentação formado por Figueroa, Teichmann e Jhonatan, e os garotos Jeferson Socas, Léo Meindl, Cauê Borges e Lucas Mariano.

Hoje reverenciado, Lula foi tratado por muitos anos como inimigo mortal de Franca. A fama ocorreu quando assumiu o rival Ribeirão Preto e conquistou cinco títulos estaduais consecutivos (2001/02/03/04/05), além de um brasileiro (2003). Sua passagem na cidade vizinha coincidiu com o surgimento de talentos como Alex Garcia, Nezinho, Renato e Arthur. O treinador teve oportunidade de comandar a seleção brasileira, mas não teve sucesso. A seleção fracassou no Pré-Olímpico de Las Vegas (EUA), em 2008, e acabou demitido.

Lula foi campeão por Brasília do NBB 2. Depois aceitou o desafio de assumir cargo de gerente técnico da LNB (Liga Nacional de Basquete). De volta ao banco de reservas agora como treinador, Lula pensa ter seu nome marcado na história do clube. Longe de ser egocêntrico, o técnico sabe que o sucesso é um fruto do trabalho em conjunto.

Comércio da Franca - À frente do time de Franca, o que foi determinante para se obter essa aprovação das arquibancadas? Quais foram os pontos positivos detectados ao longo desta temporada?
Lula Ferreira -
Conseguimos alinhar a tradição do clube com o jeito de jogar. Franca fez toda a sua história baseada em uma defesa forte, com um contra-ataque rápido e um jogo coletivo no ataque. Esses três conceitos seguimos de maneira fiel. O nosso time teve a melhor defesa do NBB. Foi a equipe que mais roubou bola e deu toco no adversário. Melhoramos muito no rebote e no ataque tínhamos variáveis peças no poder de decisão. O lema imposto no início do nosso trabalho foi seguido pelo grupo: ‘Nenhum de nós é melhor do que todos nós’.

Comércio - Qual análise se faz da categoria de base do clube? O antigo técnico, Hélio Rubens, dizia que os jogadores não estavam preparados para atuar.
Lula -
Outro ponto pedido pela direção em nossa chegada ao clube foi a realização do alinhamento do trabalho com a categoria de base, desde a formação dos atletas [Aspa - Associação de Pais e Amigos do Franca Basquete], a fase de finalização da categoria de base (Sesi/SP), até chegar ao time sub-19 do Franca Basquete e posteriormente o time adulto. Fizemos essa aproximação dos técnicos das categorias de base, com os profissionais do time adulto. Já implantamos um trabalho integrado entre os garotos da equipe sub-19 e o time principal, para vivenciar novas técnicas e um padrão mais forte de jogo.

Comércio - Pelo que tem visto, algum jogador tem condição de se tornar ídolo do basquetebol de Franca?
Lula -
Vários jogadores podem se tornar ídolos francanos, casos do Léo, Cauê e Lucas. Eles possuem característica de doação ao time e respeito à história do clube. Sabem da geração de atletas, comissão técnica e dirigentes que lutaram para construir essa tradição. Claro que isso dependerá da evolução da carreira de cada um. Um ídolo é aquele que dá a cara para bater nos momentos difíceis, que não foge das responsabilidades. Não é jogar individualmente e marcar 30 pontos na partida. Mas eles, entre outros jogadores da base, têm tudo para serem ídolos de Franca.

Comércio - O playoff contra Bauru foi acirrado e decidido no quinto jogo. O que faltou para vencer o adversário e passar para a semifinal?
Lula -
Fizemos um início de jogo ruim, mas que nos dava a condição plena de reagir. Tivemos que contornar as ausências do Jhonatan e do Teichmann nos playoffs; este último se propôs a jogar na quinta partida, mas não estava em suas melhores condições, além do estado febril do Cauê. Tudo isso foi baixando nossa força, mas o grupo foi valente, conseguiu recuperar e por pouco não empatamos o jogo no fim. Penso que se tivéssemos com um melhor rebote, talvez sairíamos com a vitória.

Comércio - O Vivo/Franca teve duas baixas importantes no elenco por lesões, o Teichmann e Jhonatan. Com eles em quadra, a história poderia ser diferente?
Lula -
É difícil prever uma coisa dessa, mas a equipe reagiu bem a esses fatos. A começar pela atitude que o time teve de mostrar a capacidade de superação. O Léo vinha sendo um ótimo sexto jogador e com a lesão do Jhonatan, assumiu a titularidade de forma soberana. O Romário foi bem. Faltou manter uma regularidade nos playoffs. Ele não vinha jogando com tanta frequência como o Léo, e talvez isso o prejudicou. Claro que esses dois jogadores fizeram falta, mas nosso foco é o time.

Comércio - No NBB 5, qual partida do time foi memorável, causou orgulho do desempenho da equipe em quadra?
Lula -
O pico mesmo do nosso time na temporada do NBB foi contra o Flamengo, até mesmo pela circunstância do jogo. Faltavam quatro minutos para o fim e estávamos 12 pontos atrás. Vi que o jogo não estava decidido. Claro que a dificuldade é tremenda por jogar na quadra do adversário, contra o líder do campeonato e até então invicto. Conseguimos fazer 20 a 3 [a vitória de Franca foi de 91 a 86], e claro que essa reação nos encheu de orgulho. Tivemos ao longo do NBB outras partidas significativas, como as vitórias contra Bauru e Paulistano, ambas no primeiro turno na casa do rival, além do momento de decisão na briga pelo G-4 onde conseguimos bater o Pinheiros e São José. Até mesmo na derrota para Uberlândia, fizemos uma partida espetacular.

Comércio - O campeonato está perto do fim. Qual jogador o senhor aponta que desequilibrou nesta temporada?
Lula -
Aquele jogador que desequilibra sozinho não tem não. Para isso ocorrer ele tem que estar apoiado no time, mas podemos citar destaques dentro do campeonato em todos os clubes. Em sua maioria são aqueles que vestiram ou ainda estão na seleção brasileira como o Marquinhos e Benite [Flamengo]. Murilo, Fúlvio e Dedé [São José]. Alex, Nezinho, Giovanonni e Arthur [Brasília], Robert Day, Robby Collum, Valtinho, Cipolini e Estevam [Uberlândia]. Larry Taylor, Pilar, Gui Deodato e Ricardo Fischer [Bauru], jogadores do Pinheiros, Franca e também Limeira. Não posso me esquecer dos americanos, o Shamell, Day, Joe Smith, entre outros que são muito bons no jogo um contra um. Foi um campeonato com 18 times e muito equilibrado.

Comércio - Há alguns dias, o senhor disse que em Franca está no paraíso e não deve deixar o time da cidade. Como tem sido esse reconhecimento do trabalho? As pessoas têm parado o senhor na rua para conversar, tirar foto e elogiar o comando?
Lula -
É bacana isso e agradeço demais. Procuro dividir esse reconhecimento com toda a minha comissão técnica e jogadores. Claro que é um orgulho enorme receber esse carinho na rua, ainda mais de uma torcida exigente que entende de basquete. Em sua maioria, a abordagem é para mostrar o apoio, elogiar esse projeto de renovação que está sendo implantado no clube e também para se desculpar dos xingamentos no passado quando eu era adversário [risos].

Comércio - Bastante vaiado no passado pela rivalidade com o COC Ribeirão, como é agora ter o nome gritado pelo torcedor francano no ginásio?
Lula -
O esporte propicia isso. Sempre me senti aqui como um adversário. A torcida de Franca é fanática. Pegar no pé dos adversários é uma maneira de tentar desestabilizar o rival, como tentaram fazer comigo ao longo dos anos. Agora estou aqui, com eles. Eles estão acompanhando o nosso trabalho diariamente e procuro honrar a confiança que me foi depositada. Quando acordo, me empenho para fazer um dia de trabalho duro, para atingir patamares maiores. Não queremos conforto não, queremos sim é formar um time que honre a tradição de Franca.

Comércio - O processo de renovação deu certo. O próximo objetivo é ganhar um título para consolidar esse projeto?
Lula -
Acredito que o time agora tem um lastro para entrar no Campeonato Paulista como um candidato ao título. Os resultados obtidos no NBB foram bons. Mirando os jogos contra os clubes paulistas Bauru, São José, Pinheiros e Limeiras, grandes forças do basquete, jogamos de igual para igual, ora vencendo, ora perdendo. O passo agora é buscar a melhoria individual, corrigir nossas deficiências, sermos mais fortes no ataque e manter nossa pegada na defesa. Com isso, sem dúvida, passaremos a ser um forte candidato ao título.

Comércio - São mais de 50 anos de história e o clube teve apenas três campeões [Pedroca, Hélio Rubens e Daniel Wattfy]. Já parou para pensar em ser o quarto nome a entrar neste seleto grupo?
Lula -
Penso, mas não de forma individual. O time veio para cá com esse desafio em mente. Não estamos fazendo por uma glória pessoal. Isso será uma consequência. Temos que manter Franca com o “DNA de campeão”, disputando títulos, claro que nem sempre vencendo, mas em busca desse objetivo. O foco está no time e não apenas em títulos individuais.

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