Não, não é dupla do sertanejo universitário. Inflação e inadimplência são problemas reais que afligem há algum tempo as famílias e, por extensão, a sociedade e a economia brasileiras, os quais já tivemos oportunidade de analisar aqui neste espaço.
Se aborreço o leitor com a reincidência é porque tais problemas não são banais, são sérios demais para serem deixados de lado, esquecidos. Clémenceau dizia que ‘a guerra é coisa grave demais para ser confiada a militares’. Com a inflação e a inadimplência é a mesma coisa: não podemos deixar o combate ao mal somente nas mãos de burocratas e economistas. Toda a sociedade deve participar da análise e das proposições.
A política econômica brasileira de curto prazo está baseada em três vertentes, ou três pilares: as metas de inflação, o câmbio flutuante e a política fiscal-tributária de gestão das contas públicas, cujo principal objetivo é a geração do superávit primário. Como um arremedo de política de crescimento, de prazo mais longo, optou-se pelos estímulos ao mercado interno, favorecendo-o com a liberalização do crédito. No entanto, as coisas não aconteceram como os burocratas de Brasília gostariam que acontecesse . . . o PIB acabou crescendo apenas 0,9% no ano passado.
A oferta de mercadorias e serviços não foi capaz de atender a pressão da demanda e o resultado foi desastroso: veio o impacto da elevação dos preços e, logo em seguida, o Balanço de Pagamentos mostrou um déficit histórico nos primeiros quatro meses do ano. E não há pré-sal que nos salve. Por um lado, baixo crescimento; por outro, pressão inflacionária e déficit nas contas externas. O estímulo ao consumo via liberalidade na concessão do crédito não foi suficiente para fazer a economia crescer. E, agora, vem o pior: quem tomou crédito (para consumo) precisa cumprir o compromisso de pagar, de honrar as dívidas assumidas. No entanto, boa parte desses tomadores não reúne as condições necessárias, e daí sobrevém a inadimplência, o calote.
Pesquisa da Fecomércio – Federação do Comércio do Estado de São Paulo, recentemente divulgada, mostra que o percentual de famílias endividadas em São Paulo deu um salto no mês passado, quando se constatou que 57,1% delas estavam endividadas. Em janeiro, esse número estava bem abaixo, 48,8%. O circuito fica bem nítido: a inflação achata a renda familiar, sobretudo das famílias mais pobres; surge o aumento do endividamento e a inadimplência aparece.
Diante desse quadro, é preciso agir. E rapidamente. O governo já lançou mão da elevação da taxa básica de juros, mas apenas isso não é suficiente. É preciso agir em várias direções e de forma articulada, com a eliminação da obesidade da máquina pública, a urgente retomada dos investimentos produtivos, a introdução do elemento competência na gestão do gasto público, capaz de assegurar-lhe retorno temporal e economicamente adequado. Tais medidas devem ser tomadas sem demora, com firmeza, sem tolerâncias. Caso contrário, corremos o risco de jogar na lata do lixo quase vinte anos de luta contra a inflação e em favor do desenvolvimento.
Vicente de Paula Oliveira
Economista
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