Interrompi meu assunto de férias, por aqui, na semana passada, porque tenho - ou deveria ter - mais do que tudo, o dever de informar meus caros leitores, sempre. Por isso, minha obrigação de tratar do ranking dos melhores restaurantes publicado na semana passada e a situação de nossa estrela maior: Alex Atala. Mas é com grande prazer que caminho de volta para Noronha.
Penso que posso sim indicar a melhor comida de Noronha, pelo menos a mais pura e despretensiosa. É verdade que o local não ajuda muito, é daquele tipo de ambiente que é melhor não olhar minúcias, nada procurar, pois vai se achar -quem já foi aos restaurantes antigos de Buenos Aires me entenderá perfeitamente.
A Barraca das Gêmeas, localizada na belíssima praia Cacimba do Padre, está por lá há 18 longos anos servindo a sua especialidade: o peixe assado na folha da bananeira. Uma das gêmeas, a Jane, porque a Janaina foi cuidar do pai doente num hospital no continente, vai todos os dias até a praia onde os pescadores, vindos do mar, vendem orgulhosos o que o mar lhes deu.
Os pescadores não podem pescar dentro dos limites do Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, é preciso se afastar e ficar no entorno da ilha. As espécies pescadas na região são muitas e bastante apreciadas. Os pescadores podem chegar com uma maravilhosa barracuda, ou um excelente atum, talvez um xaréu preto, ou anchova, xixarro...
E alguns desses, tem dias que todos esses, são servidos numa barraca de praia, nada elegante, há que se prevenir. O acompanhamento do peixe é saladinha de tomate, arroz branco, feijão preto, mandioca frita e, lógico, farofa. Faz parte do “kit” um braseiro de alumínio, uma vã tentativa de se espantar as moscas, que, atraídas pelo cheiro de peixe assado, chegam aos montes. Como almocei lá todos os dias, pude notar que o filé de anchova não atrai as moscas - detalhe: a anchova é a única a ser servida em filé, por isso vem sem cabeça e rabo, fiquei na dúvida: moscas desgostam de anchova ou são loucas por cabeça e rabo de peixe?
Pois bem, o prato é desempenhado com perfeição técnica. Crocante por fora, bem assado, e absolutamente úmido por dentro; o tempero, apenas sal e azeite. O senhor que nos serviu explicou que a folha da bananeira, arrancada ali, na hora, embrulha o peixe que é assado num braseiro. Depois de um tempo, que varia conforme o peixe, retira-se a folha, rega-se com azeite e deixa-se dourando na grelha. A grelha é grande e acomoda bem uns 20 peixes.
O prato é barato, porque serve até três pessoas e custa R$ 70, mas é demorado. Vale fazer assim: passar pela barraca pela manhã, antes de tudo dar uma olhada no bege areal que elegantemente serve de paspatur ao mar, e encomendar o delicioso peixe para a hora desejada. Daí é só chegar, pedir uma boa cerveja muito gelada e constatar pessoalmente como é doce viver no mar.
Tenho ainda uma última obrigação com o tudo que experimentamos por lá nessa durante essa viagem. Nossa pousada: a Pedras Secas. Bonita de verdade, naquele estilo rústico, preço justíssimo, uma bela vista, serviço sem retoques, com aquela simpatia natural vinda das meninas do continente que, apaixonadas por Noronha, vão ficando. E ainda, o luxo dos luxos: o silêncio e um bom expresso a qualquer hora.
DICA DA SEMANA
Peixe à japonesa
Se é para falarmos de peixe, claro, uma grande chef japonesa pode ser invocada, sem medo de errar. Eu, todas as vezes que faço quaisquer das receitas de Mari Hirata, fico ainda mais encantada.
Essa receita não exige que o peixe esteja fresco, pode estar congelado. Mas precisa ser comprado fresco e inteiro, porque precisa ser limpo e ter preservados: a cabeça, o rabo e a espinha dorsal, é daí que sairão também os sabores.
Na verdade qualquer peixe pode ser utilizado, use o de sua preferência.
Você deverá salgar o peixe levemente, acomodá-lo numa assadeira confortavelmente e forrada com uma folha grande de papel manteiga, untada, não se esqueça.
Coloque por cima do peixe: uma bandeja de cogumelo shimeji, 8 cogumelos shiitake, « copo de saque, « copo se shoyu, 6 fatias grossas de gengibre, 30g de manteiga, cebolinha a vontade.
Feche hermeticamente o peixe, deixando espaço para o ar circular. Ponha para assar, forno 200 graus, por cerca de 45 minutos se o peixe tiver até dois quilos. Outro sinal de que estará pronto: quando o papel manteiga inflar.
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