Causa séria preocupação, em consumidores de todo o País, a notícia de que um esquema de adulteração do leite foi descoberto no Rio Grande do Sul, sujeitando a população daquele Estado (e outras unidades da Federação, aí incluído São Paulo) a ingerir um produto altamente perigoso e cancerígeno. Embora o ministro da Agricultura, Antônio Andrade, tenha dito ontem que os consumidores brasileiros podem consumir leite ‘tranquilamente’ — e que as adulterações descobertas no produto fabricado no RS foram resultado de uma fiscalização eficiente do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) —, ao se verificar que pelo menos duas das marcas que teriam sido adulteradas é vendida em Franca (Líder e Italac), e ambas estão entre os lotes apreendidos, o perigo se mostra bastante próximo a nós.
De acordo com as investigações da Polícia e da fiscalização do Ministério da Agricultura, empresas que transportavam o leite cru para laticínios do Sul do País (que envasavam e distribuíam o produto longa vida UHT) adulteravam a carga com água e uréia (que tem formol, um elemento perigoso para a saúde humana e que, quando ingerido, pode causar câncer), em ambiente insalubre, na tentativa de aumentar o seu volume e obter lucro. Embora o Ministério garanta que não há mais perigo, diante da investigação ainda ineficiente teme-se que o esquema não funcionasse apenas no Rio Grande do Sul. Diante das falhas na fiscalização (e, pelo que se sabe, as empresas envasadoras não submetiam o leite recebido a exames periódicos, caso contrário o caso teria sido descoberto há mais tempo), não se pode garantir nada a essa altura do campeonato.
Ainda está na memória dos consumidores a fraude do leite longa vida ocorrida há pouco tempo, quando a adulteração (e consequente contaminação) atingiu produtos que abasteciam vários Estados. E, daquela vez, a fraude que colocou em risco a saúde de milhares e milhares de brasileiros, era realizada dentro das unidades de processamento (os laticínios). Mais recentemente, um lote de suco de soja saborizado, de uma das marcas mais famosas do País, também teve a venda proibida por sua contaminação com material de limpeza. E, com isso, não há como se evitar a desconfiança.
O que não se entende, mesmo, é como a ganância move este tipo de ação, que coloca em risco a vida de milhares de seres humanos. Enquanto o Brasil não contar com uma fiscalização criteriosa e com leis extremamente severas contra fraudes e manipulações danosas à saúde, não se pode dizer que estaremos livres de qualquer suspeita quanto a qualidade dos alimentos que consumimos. O lucro é uma das regras do mercado, em qualquer ponto do mundo. Mas buscá-lo a qualquer preço, às custas da integridade da saúde de toda uma coletividade, é uma clara agressão à preservação da vida, seja ela de seres humanos, seja ela de animais. Além de irresponsável, é uma atitude criminosa que precisa ser punida com um rigor.
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