Jardim


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Ando gostando de coisas estranhas
Que não eram do meu métier
Pedra, água, folha, flor, terra cavoucada, brisa de outono
Coisas que nem falam com a boca, coisas que sussurram de outros ninhos,
Outras vozes, outros úteros
Coisas...estranhas. Coisas que entranham.

Ando fazendo um jardim de jabuti, jardim de beija- flor e de minhoca
Jardim de pedra branca com pé de limão siciliano
Lá no fundo do quintal. Da alma.
Pressinto que esse jardim não esteja nascendo por fora, percebo que ele nasce por dentro.
Por dentro.
Aos poucos, toda manhã de borboleta e céu de abril, ele agarra por dentro aqui do peito e vai
Nascendo, pura coragem.
Sento, as pernas cruzadas, e me lembro dos jardins que abortei. Muitos.
Quanto arrependimento.

Esse jardim há de nascer
Mesmo que eu tenha que conversar com coisas estranhas ao meu conhecimento
Alheias à minha vontade. Dane-se.
Não esmagarei primavera alguma com mão de luva.
Há um jardim nascendo
Ando conversando com ele.

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