Saúde é direito. E daí?


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O Brasil aplica 4% do PIB (Produto Interno Bruto) em Saúde, e possui no SUS (Sistema Único de Saúde) um dos maiores conjuntos de atendimento do médico-hospitalar públicos do mundo. Com a destinação dos “royalties” do petróleo retirado do pré-sal, o governo pretende elevar essa aplicação ao equivalente a 10% do PIB, proporcionalmente, mais do que hoje aplicam os sistemas públicos de saúde do Canadá (8%), França (9,3%) e Reino Unido (8,2%).

Apesar de todo o recurso que já investe e da manutenção de unidades hospitalares que vão do regular ao alto padrão, o SUS tem seu grande gargalo na porta de entrada. As UBS (Unidades Básicas de Saúde), que têm a finalidade de receber o paciente, pesquisar o seu mal e encaminhá-lo ao serviço especializado, são congestionadas e, em vez do atendimento, montam a fila invisível, onde aquele que chega com uma queixa de saúde tem sua consulta marcada para meses e até para o ano seguinte. Há casos de UBSs que, mesmo recorrendo ao cruel agendamento, ainda são obrigadas a atender o dobro ou até o triplo de sua capacidade.

Quando não encontra atendimento nas UBS operadas pelas prefeituras, o paciente recorre ao pronto-socorro, que tem a função e é preparado para atender apenas urgências e emergências. Tudo acaba transformado em urgência, e esse serviço também se precariza, dificultando o atendimento a acidentados e traumatizados. Não é raro ocorrerem desentendimentos entre funcionários, pacientes e familiares desesperados. Os prefeitos dizem não encontrar médicos para atender às necessidades. Muitos já aumentaram salários mas, mesmo assim, a mão-de-obra é escassa e, quando surge, os profissionais querem apenas fazer bico e não aceitam, ou fraudam o cartão de ponto.

Esse problema merece todo o empenho das autoridades e da sociedade. O sistema de saúde já está montado e em funcionamento. Há que se eliminar os gargalos. Se não existem médicos e outros profissionais dispostos a assumir os postos, poderia o governo, na mesma proporção que mantém as escolas públicas de medicina e fornece bolsa nas escolas particulares, exigir que esses novos doutores dêem sua contrapartida. Ao invés de recém-formados irem para o consultório particular, que sejam convocados a trabalhar, com salários normais e todas as vantagens, por um determinado período, nas UBS e outros serviços que hoje fazem do SUS um sistema problemático.

Isso, além de resolver o caos do sistema, serviria de treinamento ao próprio médico em começo de carreira. E não seria nada demais.

Todos os profissionais que se formam em escolas públicas ou com bolsas custeadas pelo erário, deveriam, obrigatoriamente, ser chamados a dar sua contrapartida social. O povo que, com seus impostos, financia os alunos das escolas superiores públicas, não merece o padecimento e a insegurança que hoje se verifica no encaminhamento dos seus problemas de saúde.

Dirceu Cardoso Gonçalves
Tenente, diretor da Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo

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