“Não é possível governar um país que tem 246 tipos de queijo!”
Charles de Gaulle (1890- 1970)
estadista francês
Não deveríamos adjetivar como “abobrinhas” certas baboseiras ditas sem fundamento, hábito muito comum que desenvolvem pessoas que falam sem pensar, só para fazer soar alguma coisa em geral inútil. A inclusão do substantivo apenas se justifica se for considerada a facilidade com que as palavras brotam de certas bocas insensatas, pois é verdade que o legume se multiplica rapidamente da noite para o dia, entre as mil ramas que cobrem o chão. Filhos alheios crescem como abobrinhas, diz ditado antigo com raízes no Brasil rural. Os próprios demoram mais.
A se prestar atenção no valor nutritivo e no sabor da abobrinha, a imputação de besteira e leviandade é injusta. Ela contém nutrientes essenciais para o organismo humano, como o ácido fólico, imprescindível para as gestantes; vitaminas do complexo B, especialmente a B1, importante nos processos cognitivos, memória, concentração e raciocínio; e a B3, que ativa a circulação, melhora a digestão, ajuda a baixar níveis de colesterol, pressão e glicose. Não bastasse tudo isso, ainda apresenta bons níveis de fósforo, cálcio, potássio e betacaroteno.
Conhecida desde os primórdios pelos povos nativos das Américas como incas, astecas e maias, também pelos tupis que se espalhavam pelo litoral de nosso país, a abobrinha foi levada à Europa pelos colonizadores espanhóis. Mas quem se apropriou dela de forma mais vasta e criativa, levando-a a fazer parte de cardápio variado e sugestivo, foi o povo italiano. Mais do que em outras mesas, foi na italiana que as zucchini mostraram sua versatilidade. Se entre nós os mineiros fizeram da abobrinha batidinha na ponta da faca e refogada no toucinho um ícone que vem desde o Brasil Colônia, na bota a abobrinha alçou voos e virou antepasto, carpaccio, escabeche, sopa, lasanha, acompanhamento de massas e ingrediente de risotos, além de ser grelhada, frita, gratinada e assada, com recheios variados. Há incríveis receitas onde a abobrinha ganha status relevante. A chef Mara Salles, do restaurante paulistano Tordesilhas, pesquisadora da cozinha brasileira há mais de vinte anos, costuma dizer que os brasileiros precisam aprender a valorizar seus produtos, entre ele a abobrinha, em novas receitas. Provocadora, diz ter esperança de que um dia o fruto da família das cucurbitáceas se torne vedete nas mesas ao lado de maxixes, jilós, chuchus e quiabos. E pergunta: “Por que não usá-los com a mesma sofisticação dos aspargos nos cardápios internacionais”?
No viés nacionalista e sustentável de Mara Salles, nossa proposta hoje chama a atenção para um bolo de abobrinha que fica muito gostoso e pode ser servido como lanche. Entre seus ingredientes encontra-se outra preciosidade culinária que é a cebola roxa, linda e curativa. Romanos, egípcios e persas a consumiam largamente na Antiguidade como remédio valioso para muitos males. Eles agiam intuitivamente, pois apenas no século XIX se descobriu que ela é um antiinflamatório, antibiótico, antiviral e antioxidante excepcionalmente potente, como todos os outros alimentos da mesma cor púrpura, como uvas, amoras, mirtilos e figos.
Para o nosso bolo, que além de gostoso e bonito é econômico e prático de preparar, basta ter abobrinhas bem frescas, que são lavadas, levemente raspadas e secas antes de terem as sementes retiradas. Depois é passar os pedaços no lado grosso do ralador. A cebola deve ser picada em cubinhos. O queijo precisa ter boa procedência, se possível ralado na hora. Quinze minutos para o preparo, meia hora de forno e em menos de uma hora você coloca o bolo de abobrinha na mesa.
Ingredientes
6 abobrinhas
2 xícaras de farinha de trigo
4 ovos
2 colheres (sopa) de manteiga
1 cebola roxa nédia
1 colher (sopa) de fermento
1 colher (sopa) de gergelim
100 gramas de parmesão ralado
Sal e pimenta-do-reino a gosto
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