Fernando de Noronha: beleza e gastronomia


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Num lugar assim, vamos atrás do bom e fresco peixe, que por aqui não temos
Num lugar assim, vamos atrás do bom e fresco peixe, que por aqui não temos

O livro que escolhi para me acompanhar nessas curtas férias eu não recomendaria - não em férias. Peguei uma dica do cronista da Folha, Marcelo Coelho, e quase me dei mal. Como literatura é bem fraco, vale como referência histórica, o pataco do livro (O Livro do Travesseiro, de Sei Shônagon) foi escrito por uma dama da corte japonesa do ano 1.000! Falando assim parece coisa de museu. E aí reside parte da graça do livro, é incrível a atualidade dele. E a autora também faz umas brincadeiras, umas listas sobre coisas da vida da gente - acabamos por fazer o mesmo. Mais ou menos assim:

Coisas que causam surpresa.
Coisas que decepcionam.
Coisas que dão prazer.
Coisas que são maravilhosas...

Pois bem, Fernando de Noronha continua maravilhosa e, sem dúvida, figura na minha lista de coisas maravilhosas - acho que já falei isso por aqui -, mas a natureza da ilha faz parte daquele grupo de beleza que nos trespassa, sem chance de defesa. Aquele tipo de beleza que aponta o dedo para nossa pequenez e insignificância. Tenho comigo, acho que é bobagem, mas os solos rochosos de lavas vulcânicas me parecem inquietantes e prontos a voltarem a seu lugar a qualquer momento, prontos a fazer um estardalhaço que nos levaria juntos embora. Besteira, claro...

É verdade que Noronha não é mais a mesma, há sinais aqui e acolá de dominação humana, um tal de colocar passarela numa trilha sossegada de terra, lojinhas, conveniências, cerveja e água de coco em postos próximos às praias. Pelo menos são próximos e não nas praias. Parece que deixarão intocáveis as praias que são, disparadas, as mais belas do Brasil.

Também, para quem quer sair para comer, a situação já mudou muito. Tem-se boa comida, às vezes, impropriamente pretensiosa, desnecessário. Num lugar assim, vamos atrás do bom e fresco peixe, que por aqui não temos. E se é peixe, bom e fresco, ele dispensa as frescuras, aliás, a última moda da culinária: culinária de produto. Onde há um grande produto usa-se o mínimo necessário para que a essência não se perca.

É atrás disso que estou todas as vezes que tenho bem aos meus pés uma bela barracuda, por exemplo.

Outras vezes, dispensa-se o melhor, mais gostoso e mais barato, só para parecer mais fino. É o caso do bar Mergulhão, que, aliás, recomendo. Tem vista linda, ótimo atendimento e comida boa. Mas seu melhor prato eram as manjubinhas fritas, estalando, com farofa de dendê, molho de pimenta caseira. Deixou de lado, por quê? As manjubinhas dão tanto por ali, que um ilhéu me disse que, algumas vezes, são instados a pegá-las de balde no porto. Sardinha frita, tampouco há. Ah! Mas se quiserem um chutney de manga com camarão meio ruim, aí tem. É implicância, eu já sei, mas isso me faz pensar: será que fazemos o mesmo, será que estamos renegando excelentes produtos e inventando moda besta?! Ai que medo.

Voltamos ao muito bom Varanda, talvez o melhor custo benefício da ilha, dá para pensar que se está jantando num lugar mais fino, mais arrumado. Tem bons vinhos, inclusive de meia garrafa. Os pratos dão para duas pessoas e, embora o tempero possa passar um pouquinho, a noite está garantida. Ou o almoço, já que a vista do restaurante é pra ser curtida de dia.

Já é possível se comer uma boa pizza, num lugar bem ajeitado e com bom preço. A pizzaria fica na pracinha dos Flamboyants, que por lá florescem agora - em Noronha, a estação das chuvas é no inverno. E o Empório São Miguel. Novamente, ótimo atendimento, eles não fazem pizzas pequenas, mas trabalham com calzones quase individuais, e são muito bons. Termino assim, por hoje, no meio do caminho, pois volto a Noronha com vocês, há muito o que se falar e comer ainda.


DICA DA SEMANA

Sopa de feijão

Meio dispensável dar aqui uma receita ou qualquer dica para uma deliciosa sopa de feijão. Acho que todos sabemos isso.

Mas a Nina Horta dá uma dicazinha, algo que talvez dê um toque a mais. E já que a maravilhosa estação do clima ameno mostra timidamente a sua cara, podemos começar a perfumar a casa com aqueles aromas de caldos, deixando a casa ainda mais casa.

Pegue o feijão com o caldo e passe pelo processador, provavelmente você não precisará de peneira, tudo ficará reduzido a caldo fino. Pegue bastante salsa e um pouco de cebolinha e pique delicadamente. Cozinhe claras de ovos, uma para cada concha grande de feijão. Depois de cozidas pique-as. Faça croutôns: corte o pão francês em quadradinho de mais ou menos 2cm, aqueça o azeite, jogue nele uns dentes de alho amassados com casca, vá fritando o pão em fogo baixo, até dourar.

Pronto, num prato fundo coloque o caldo do feijão, por cima: os croutôs, as claras e por último o cheiro verde. É só saborear.

Deixo a dica: a Nina diz que com o feijão carioquinha a receita fica melhor ainda.

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