A última parte do texto ‘Nós precisamos ‘deles’”, escrito pelo juiz aposentado Luiz Henrique Cunha. E o adeus a Pracuch
Em resumo, ele defende de que seres humanos gerados sem responsabilidade, na miserabilidade, no momentâneo prazer do ato sexual sem compromisso, engrossam as estatísticas da indústria da insegurança e da violência. Critica o Estado, que, ao invés de prover soluções de educação, presença efetiva e formulação ideal de leis, prefere multiplicar a construção de presídios, e ampliar efetivos de segurança e a ‘indústria’ que vive disso. Cuidamos do problema, mas não nos preocupamos com a origem.
A massa inculta, perenemente servida de crianças novas, deixadas à própria sorte pelo status quo, fomenta o Brasil violento que se institucionaliza dia a dia. Cresce em escala geométrica e retroalimenta a ‘indústria’. Conversei com o juiz Cunha ontem. Disse-me que acompanhou ponderações de leitores do Comércio. Quer ampliar a discussão. Quem sabe, instituições sérias instalem um fórum de debates, como propôs Paulo Rubens de Almeida, ex-presidente da Acif e empresário do ramo de seguros. Vamos à última parte do texto:
‘NATALIDADE RESPONSÁVEL!’
“Sonho com construção de mais escolas, creches e hospitais e não (...) penitenciárias que estão sendo levantadas a custo exorbitante, para gáudio de empreiteiros e de órgãos de licitação, desvirtuadas da finalidade da ressocialização dos detentos. Sonho que aqueles que não nasceram em berço melhor, deixem de ser responsáveis por gastos que vão chegar, este ano, a R$ 22 bilhões (para amparar o sistema de segurança pública do Estado)!
Será com o controle da natalidade, natalidade responsável, que ganharemos essa luta, possibilitando, ao fim, sair de nossa dependência a ‘eles’, nossos irmãos, seres humanos que foram brutalizados pela vida e que tiveram o infortúnio de nascerem miseráveis. ‘Não há nada como o sonho para criar o futuro. Utopia hoje, carne e osso amanhã’, disse Victor Hugo. Estivesse vivo, teria, matéria mais que suficiente para escrever Les Miseràbles Brèsiliens. Uma observação final: a Câmara dos Deputados, sem o Senado, conta em 2013, com R$ 4,9 bilhões para promover a elaboração das leis neste pobre País. São R$ 9,5 milhões para cada deputado, ou seja, R$ 790 mil por mês.”
ATÉ JÁ, MEU VELHO
Pracuch se foi. Fui seu editor nos últimos cinco anos. Aprendi uma enormidade lendo seus mais de 260 textos, incomparáveis aulas de gerência industrial de calçados, produtividade, controle de gastos, comercialização, qualidade e, sobretudo, modernidade.
Era um escritor compulsivo. Sua mente competente, lógica, certamente lhe cobrava ‘botar para fora’ o que considerava ter que compartilhar. Nos cinco anos em que o editei, nunca deixou de enviar duas ou mais colunas por semana. Era fonte inesgotável, didática, objetiva, referencial. Carlos Alberto Rosa Brigagão, diretor da Sândalo, sempre disse que “a indústria de calçados de Franca foi uma e tornou-se outra, melhor, depois de Pracuch’. Não houve quem não o conhecesse, fosse para amar ou odiar. Ele dizia o que tinha que ser dito, doesse a quem doesse, invariavelmente acertando. Sua capacidade de análise setorial nunca se contestou. Quem tentou, teve que rever.
Era um típico e culto europeu, cavalheiro, ético, cidadão, forjado pelos séculos de história do Velho Continente. Há alguns insights que quero compartilhar com meus leitores, em saudação e respeito à sua memória:
DETERMINAÇÃO – Em visita que me fez em outubro de 2012: “Não há escapatória. Acabo de ler médico mexicano, especialista em câncer. Concordo com ele. Abrevia-se, mas há casos sem solução. Continuo atento a meu espírito. A casca não vale nada. Continuo trabalhando e produzindo. O que mais deveria fazer?” Dias depois, liguei, pedindo endereço para enviar exemplar do livro 100 anos de Paixão - A história da A.A. Francana, escrito pelo jornalista Sérgio Marques deste Comércio, e o filme Fernão Capelo Gaivota, baseado em livro do escritor Richard Bach, um dos de cabeceira de Pracuch – ‘a história da gaivota determinada, que hoje está aqui e amanhã ali, assim como eu’. Foi taxativo: “Não mande. Vou buscar pessoalmente”.
VISÃO DA MORTE – Escreveu-me, em 25 de março de 2013: “amanhã vou fazer o último exame no Instituto de Câncer e, depois de amanhã, ouvirei o veredicto se ainda vale a pena (...) ou me despachar direto para necrotério.” No mesmo dia, enviou-me quatro textos de colunas, a série ‘Produtividade’. Publiquei em 28 de março, 2, 9 e 16 de abril. Percebam: quatro colunas, nenhuma a mais, para quatro terças-feiras. Ele morreu dia 20 de abril, sábado. Metódico até na previsão do que lhe restava de vida...
ESPERANÇA NA INDÚSTRIA – ‘O que prende as empresas (...)? Acomodação, medo de inovação, tradição, falta de instrução, de orientação? O que é preciso para que isso mude? Um tsunami para sacudir as mentes? Perdoem-me a impaciência. Já estou no fim da vida e queria fechar meus olhos com sentimento de tranquilidade, acreditando que a indústria de calçados brasileira, à qual dediquei 60 anos da minha vida profissional, irá sobreviver.” (Na coluna ‘Produtividade 2’, publicada em 24/03/2013)
‘VOU FALHAR...’ – 18 de abril de 2013, dois dias antes de sua morte. Conversamos ao telefone, sua fala baixa, cansada. “Continuo no tratamento que me impõem. Por mim, já teria parado há muito tempo”. Não havia tristeza ou preocupação em sua voz. Quis incentivá-lo: seu livro e o filme continuam comigo. Você prometeu que viria buscar... Riso curto, fina ironia sempre afiada: “Ah, Luiz. Acho que vou falhar em um compromisso pela primeira vez em minha vida...” Penso que Pracuch foi em paz, consciente que fez o que devia. O homem é suas ideias, para sempre. Imagino-o, aliás, com o mesmo sorriso irônico (agora maroto?) em conversas lá com Deus, o Todo Poderoso tentando se virar para posicionar-se frente às polêmicas relevantes do velho sapateiro.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
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