Erro sempre ao calcular idade de pessoas, mas acho que a menina tinha uns quatro anos. Seu pedido insistente acompanhava, a uns cinco metros de distância, duas mulheres que andavam ligeiras em direção à praça central.
Eu subia a Rua Voluntários da Franca e alcancei o trio ali, perto da Santa Casa. A súplica contínua da criança reduziu a velocidade de meus passos, e fui acompanhando o grupo.
- Mãe, eu quero água.
O pedido, reiterado dezenas de vezes, permaneceu ignorado durante todo o percurso, mas levou minha imaginação a visualizar todo o saara percorrido pelas mulheres desde o bairro da Santa Cruz, desde o Ângela Rosa, desde o Jardim Noêmia, desde o Parati, desde o Ana Doroteia, talvez desde o Jardim São Luiz, ou desde o Jardim Palestina.
Era pouco mais de dez horas e, embora o sol ainda não queimasse, deduzi que, se a caminhada era atividade normal para as mulheres, as perninhas da garota enfrentavam maratona olímpica.
- Mãe, eu quero água.
A surdez das adultas impediu oásis para a pequena atleta, pelo menos até o momento em que atravessaram a Praça Barão, desembestaram pela Rua do Comércio, em direção à Praça do Cemitério.
As três criaturas sumiram. Só não levaram a súplica que, uma semana depois, continua arapongando em mim.
- Mãe, eu quero água.
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