Morreu em São Paulo, capital, na Unidade de Terapia Intensiva do Instituto do Câncer, dia 20, sábado, 22h45 horas, o tcheco Zdenek Pracuch, aos 85 anos. Consultor calçadista e “sapateiro”, como gostava de ser chamado, era colunista voluntário deste Comércio. Seu atestado de óbito registrou parada cardiorrespiratória em função de falência múltipla de órgãos causada por câncer.
Pracuch teve câncer intestinal diagnosticado em 2011. Submeteu-se a cirurgia em Franca e, poucas semanas depois, ainda que paciente de tratamentos quimio e radioterapêuticos, retomou suas atividades. Ao final do ano passado, constatada grave recidiva, foi levado pela família para São Paulo e ao Instituto do Câncer, sendo, lá, submetido a nova cirurgia.
Mesmo enfraquecido, não deixou de colocar suas ideias no papel. Manteve, com rigor, a periodicidade de sua coluna semanal das terças-feiras neste Comércio. Enviava duas ou mais colunas de uma única vez. “Escrever me é lazer e exercício de responsabilidade, além de ajudar também neste tratamento que, mesmo sem querer, me aconselham a fazer. Se vocês deixarem, permaneço escrevendo”. Permaneceu.
O recrudescimento da doença o atingiu fortemente, também em função da idade. Conversei com ele em várias oportunidades nestes últimos meses, mas jamais o senti entregue ou preocupado com o que poderia lhe advir. Continou escrevendo. Seus últimos textos falaram sobre “Produtividade”. Dividiu o tema em quatro partes e enviou todas. O Comércio publicou a última parte terça-feira passada. Não houve novo envio. Seu último texto coincidiu com sua última semana de vida. Foi metódico, pela última vez.
Este rigor de organização e responsabilidade, Pracuch vivenciou em toda a sua vida. Não agradou a todos ao longo dos 71 anos que dedicou à atividade de consultor. Teve fieis e constantes seguidores, assim como opositores. A todos, tratava com a mesma fidalguia, elegância e educação. Sua discordância, mostrava, às vezes, em fina ironia, mas sem destratar quem quer que seja. Até recentemente, ainda dedicado à consultoria em Franca, Jaú, Birigui (SP) e Nova Serrana (MG), viajava de carro, a partir de Itajubá (MG), onde residia, ele mesmo ao volante. Perguntei-lhe, um dia, como...? E ele, “vou devagar, observando as regras de trânsito, preocupado em fazer por mim e para quem vem lá. E vou cantando. Essa é a receita. Então, vou e volto.”
Pracuch chegou a Franca na década de 60 pelas mãos do industrial Wilson Sábio de Mello, que o descobriu participando da instalação de uma esteira de trabalho na Bahia. Wilson tinha certeza que esteiras poderiam ser usadas para fabricar calçado. Recebeu de Pracuch a sinalização de “boa ideia”. Wilson o trouxe para a cidade, lhe deu mesa ao lado da sua em seu próprio escritório. As esteiras foram implantadas junto aos conceitos de gestão e produção das Organizações Bata, tcheca como Pracuch, uma das principais indústrias de calçados do mundo. A história da Samello se tornou o que se tornou.
Pracuch se aproximou também do Comércio da Franca. Seus textos, incitantes à modernidade, publicados semanalmente na seção chamada ‘Brasil em Discussão’, alcançaram audiência rapidamente. Fez leitores fieis e críticos contumazes. Não havia unanimidade quanto às previsões feitas pelo consultor, mas dezenas de críticos ferrenhos se renderam à sua capacidade de analisar cenários. Isso o levou a mais trabalhos de consultoria, que se estenderam a outras empresas da cidade e indústrias de várias regiões do Brasil. Com a chegada da idade, foi menos ao exterior mas continou mantendo relacionamento próximo com incontáveis de seus companheiros da Bata e especialistas de sua rede de relacionamento nos quatro cantos do mundo.
Em 20 de maio de 2008, convidado pelo Comércio, tornou-se colunista periódico, assinando seus textos como “Zdenek Pracuch, sapateiro”. Foram mais de 260 publicações. Somadas, configuram moderníssima análise do setor calçadista nacional, ênfase nos problemas vividos pelas indústrias francanas.
Foi casado por 65 anos com Marie Pracuch Ova, também tcheca, a quem deixa viúva. Do enlace, nasceram Zdenek Roberto Pracuch, residente em Guimarães, Portugal; Milan Mário Pracuch, residente em Osasco (SP) e Thomas Pracuch, residente em Fortaleza (CE).
O corpo foi cremado ontem, 13 horas, no Crematório da Vila Alpina, em São Paulo. Um dia antes, no domingo, houve cerimônia íntima da família, no mesmo local. Suas cinzas serão conduzidas à família ao início do mês de maio.
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