Parecia um século sem colocar pneus em estrada alguma. Até por isso, o alívio se demora, vai rodeando devagarinho, esconde-se atrás de um barulho ou estresse normal de qualquer viagem. A ausência de uma semana parece requerer a organização de um mês inteiro de ausência.
Mas desta vez não cedi ao prático, ao simples. Bati o pé, antes das férias propriamente ditas: queria e precisava conhecer o nem tão novo restaurante de São Paulo, o Attimo. Queria porque é bom, precisava porque temos (Azul Culinária Brasileira) uma relação de afinidade com a vocação do cardápio. Lá, eles praticam uma culinária ítalo-caipira, e o caipira é a culinária brasileira do interior paulista/mineiro.
Por isso, saí daqui de Franca com 20 horas de antecedência ao voo, para desfrutar dos dotes do querido chef Jefferson Rueda. Quem se aventurar a ir de carro, o endereço é fácil de encontrar, ao lado do Parque Ibirapuera, mas o imóvel do restaurante não se destaca na rua, há que prestar atenção. Aliás, a casa vale a visita, tem história e é adorada por muitos arquitetos. Estão ali: a escadaria de pedra rústica, o lambri em mogno, a parede de azulejos pintados à mão e uma parede de cobogós brancos. O nome é estranho, mas sabemos o que é. Sabe aqueles tijolos vazados dos anos 50, geralmente na cor azul calcinha, rosa e verde? Pois é, a do restaurante é branca e linda. O piso em mármore e a porta de vidro que separa elegantemente a cozinha do salão completam à perfeição a dupla elegância e sofisticação. Bom começar assim.
Fomos muito bem atendidos, um serviço atencioso, sem melação. O salão principal estava lotado. Embora não sirva almoço executivo, há, disfarçadamente, no final do cardápio uma sugestão de prato para cada dia com bom preço. Mas optamos por experimentar os hits do restaurante.
De entrada pedi uma salada verde com uma terrine de camarão. Estava muito boa, mas a técnica e aparência do prato insinuam coisa melhor. O camarão é picadinho em ponta de faca, depois, bem, ninguém quis me contar, a garçonete disse que é segredo. Mas acho que ele deve ser pré-cozido, depois colocado numa forminha quadrada, quando bem gelado deve ser ensacado no vácuo e assim guardado. Quando pedido, esse bloquinho é grelhadinho no azeite bem quente... especulação. Meu marido pediu uma salada de tomates, sardinhas e cebolas roxas, achei melhor que a minha.
Fomos aos principais. Eu tinha de comer o leitão de leite, com ou sem vontade, afinal o chef Jefferson Rueda tem na sua cozinha um forno à carvão - um Josper trazido da Espanha, único no Brasil. O prato todo é leitão de leite, tutu mole, tira de bacon, ovo de codorna frito. Não gostaria de dizer isso, mas hoje escrevendo aqui essa coluna, não posso mentir: estava ótimo, muito gostoso mesmo. Mas não bate o leitão servido pela Roberta Sudbrack, que já lhes falei aqui. A carne dela contou história dentro da minha boca, aquela sinfonia de sabores que pode fazer chorar. O dele estava ótimo, sei lá, perfeito até, mas não mágico.
Meu marido optou pelo ravióli recheado de galinha caipira e quiabo crocante banhado por um molho denso, uma redução de caldo de frango, cheio de sabor. A massa do ravióli mais parecia obra de japonês, fina como papel, o recheio suculento e equilíbrio entre os ingredientes, via-se a galinha, via-se o quiabo, delicioso.
Estava tudo ótimo, sobretudo o vinho: L’Avvocata, uva barbera, preço ótimo, vale mais do que todos os centavos que custa. Pois bem, a magia tardou, mas não falhou. A pâtissièrie, ex-D.O.M., Saiko Izawa recriou a minha sobremesa preferida e fez de mim escrava absoluta do pudim de leite, que lá vem muito bem acompanhado por um delicioso chantilly de caramelo e, só pra brincar, algodão doce.
DICA DA SEMANA
Torresmo
Torresmos são uma delícia, quase unanimidade. Servem, tanto puros como aperitivos, quanto “enfeitam” maravilhosamente uma farofa ou uma couvezinha bem verdinha e fininha.
Mas são bem chatinhos de se fazer. Há outras maneiras de prepará-los, talvez a sua fique melhor, segue o passo a passo da Nina Horta e os meus ficaram muito bons.
Pegue a peça de toucinho e corte-a com uma faca afiada em quadrados grandes. Para que não fiquem muito grossos corte-os novamente ao meio e você terá metade dos pedaços com couro e gordura e a outra metade só com gordura. Finalize esse corta-corta até obter quadrados de 2 centímetros.
Daí, lave tudo e bem em água corrente. Colocar numa vasilha e jogar água fervente o suficiente para cobri-los. Mexa e escorra a seguir. Repita o procedimento. Tempere com sal e deixe descansar por meia hora.
Coloque-os numa frigideira e com atenção vá apertando e mexendo, opte por uma colher de pau de cabo comprido e luvas nas mãos. Num tempo de 15 minutos eles estarão prontos e deliciosos.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.