A economia brasileira desfrutou, nos primeiros anos do século XXI, bons momentos em termos de crescimento e preços sob controle. Depois, a partir de 2008, com a eclosão da crise financeira que, tendo começado nos EUA, acabou por afetar quase todo o mundo, parece que o encanto se quebrou: o crescimento arrefeceu e a inflação retornou com extraordinário ímpeto.
Como é que o paraíso veio a se transformar em inferno, ou, pelo menos, em purgatório? O economista Paulo R. Haddad, em interessante artigo n’O Estado de S. Paulo (‘As armadilhas dos macropreços’), ofereceu-nos interpretação dos fatos que parece encaixar-se perfeitamente nos acontecimentos. Segundo o ex-ministro, chegamos à exaustão de três ciclos históricos que moldaram o destino da nossa economia nos últimos anos e ajudaram-na a crescer.
O primeiro deles foram os felizes anos da economia internacional, quando tudo ia bem para os países desenvolvidos e para os emergentes. O Brasil se beneficiou da expansão da economia mundial, exportando ‘commodities’ e alimentos com relativa folga e construindo razoável reserva em divisas. Os ganhos com as privatizações e desregulamentações, o segundo grande acontecimento a favorecer e a proporcionar bons resultados para a economia brasileira, estabilizou-se. O terceiro foram os benefícios das políticas distributivistas, que tiveram inicio em 1988 com a nova Constituição, conheceram seu auge nos governos petistas e, associados às facilidades na concessão do crédito, ajudaram a ampliar o mercado interno, dando força e aumentando a ‘musculatura’ da demanda interna, do mercado doméstico.
Pois bem, essas três forças, esses três ciclos extraordinários que ajudaram a promover e a sustentar os bons resultados da economia nacional durante quase 10 anos, chegaram ou estão chegando ao fim. Estão se exaurindo, e a equipe econômica parece não se aperceber do momento histórico. Tal qual o comandante do Titanic, que não ouviu as advertências sobre o perigo iminente, age como se o tempo não houvesse passado e registrado significativas alterações na realidade econômica. Algumas até radicais.
Ai entram a miopia dos governantes e a indigência da política econômica. A visão distorcida da realidade traz medidas ‘localizadas’ para sanar o mal que vem no atacado e no varejo.
No atacado, ao se constatar o dramático fim dos ciclos que impulsionaram a economia nos últimos anos. No varejo, pelas medidas pontuais e pouco eficazes adotadas pelo governo.
O mal maior está em alguns fatos bem identificáveis, sobre os quais todos nós devemos refletir e ponderar. Pelo que se viu até agora, a equipe governamental que toca a economia não reúne condições para propor um novo ciclo, um novo paradigma histórico para (re)conduzir a economia aos rumos do desenvolvimento. Das medidas necessárias, mas consideradas duras, não há tampouco indicações de que serão tomadas: o efetivo aperto nas políticas fiscal e monetária, a reativação dos investimentos produtivos e a urgente diminuição do tamanho da máquina pública.
Vicente de Paula Oliveira
Economista
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