Chance: alunos da alfabetização mudam ‘status’ na identidade


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COM ORGULHO - A dona de casa Dionézia de Freitas, de 76 anos, assina novo RG
COM ORGULHO - A dona de casa Dionézia de Freitas, de 76 anos, assina novo RG

Lentamente, a dona de casa Dionézia Conceição de Freitas, 76, escreve seu nome em letra de forma em um formulário. O procedimento demora apenas alguns minutos, mas significa um grande passo para ela: agora, seu novo RG virá com a sua própria assinatura, e não com o estigmática expressão de “não alfabetizada”.

Ela está no primeiro ano do ensino fundamental da Educação de Jovens e Adultos. Foi o programa da Secretaria Municipal de Educação que organizou, juntamente com o Poupatempo, a troca dos RGs de 38 dos seus alunos ontem de manhã, no Colégio Champagnat. Os estudantes preencheram a papelada, receberam um protocolo e deverão receber a nova carteira de identidade, com a assinatura deles, no próximo dia 30.

“Quero aprender a ler e a escrever para saber mais coisas. Quanto mais, melhor”, disse Dionézia. Quando era criança, ela afirmou que seus pais não a matricularam na escola. “Eles não se importaram. Agora, eu mesma estou me importando comigo. Com esse novo RG, não vou ser mais analfabeta”, comemorou.

A iniciativa foi da coordenadora do programa de Alfabetização em Franca, Rita Mozetti. A ideia surgiu no ano passado, durante as aulas. Uma das atividades era estudar o que era a identidade. Através dela, os alunos aprendiam seus nomes completos, datas de nascimento e filiação. “Percebemos o tanto de RGs que não vinham assinados, só com a expressão ‘não alfabetizados’, ‘não assina’ ou ‘analfabeto’. Eles já saíram dessa condição e vão levar isso até quando? O RG se torna um rótulo, causa constrangimento e os alunos estão cansados de explicar que já são alfabetizados. Aí surgiu a ideia de trocar os RGs”, disse Rita

Dionézia não é a única aluna da Alfabetização a se maravilhar com a ideia da professora Rita. A sapateira aposentada Maria Aparecida de Azevedo, 73, quando vai ao banco, reclama dos atendentes sempre pedirem para ela autenticar os documentos com o dedo. “Eu falava que eu já sabia escrever, mas eles não aceitavam, e eu tinha que por o dedo. Me sentia para baixo”, afirma.

De família pobre, ela morava na zona rural e não teve acesso a escolas quando era criança. “Preciso ser gente na vida algum dia. Quando a pessoa não entende nada, não é gente”, diz. Ela estuda já há cinco anos e ainda não lê muito bem, mas já escreve seu nome e é muito boa em contas matemáticas. “Eu adoro estudar. Quero escrever cartas para alguns familiares que moram longe. Acho tão bonito [escrever cartas], mas o povo manda tudo é por e-mail. E-mail, pra mim, não está com nada”, afirma.

A história de dona Maria Aparecida é semelhante a de muitos outros alunos da alfabetização. Assim como ela, o pedreiro Milton Mendonça, 57, não pôde se alfabetizar por trabalhar na roça. “Quero ler a Bíblia e tirar carta. Já sei dirigir, tenho carro, mas para tirar carta tenho que ser alfabetizado. A vida agora vai ficar mais fácil, porque, sem RG assinado, não pude nem abrir uma conta no banco. Enfrentei humilhação.”
 

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