O articulista João Pereira Coutinho, no caderno ‘Ilustrada’, da Folha de S. Paulo, edição de 5 de fevereiro último, sob o título ‘É proibido proibir?’, e citando matéria assinada por Patrícia de Campos Mello, também na Folha (03/02/2013), tece judiciosas considerações a respeito da exploração de mulheres que, pobres, se dispõem a prestar-se como mães de aluguel.
Segundo ele, a jornalista constatou que, na Índia, computando apenas a cidade de Anand, mães pobres são contratadas para terem seus óvulos fecundados por espermatozoides de homens cujas esposas são incapazes de gerar filhos, de que decorre nascer um bebê a cada três dias, destinado à ‘exportação’. Os clientes são norte-americanos, ingleses, japoneses, canadenses e até brasileiros, girando o preço de cada criança em torno de U$ 20 mil (cerca de 40 mil reais). O articulista considera que se trata de exploração da miséria alheia, com o que concordamos plenamente, porque não se pode negociar um filho como se negocia um objeto.
É evidente que nós, espíritas, consideramos que facilitar a vida humana é uma atitude louvável e recomendável. Todo casal pode utilizar-se dos meios legais e éticos disponíveis para satisfazer os seus anseios de ter filhos, inclusive pelas vias da adoção. Sabemos que as famílias se formam por laços espirituais e que não é a consanguinidade que legitima o verdadeiro amor. O que se lamenta, no caso em tela, é a exploração da pobreza de alguém, desconsiderando-se sentimentos.
Trata-se de contratação, sob o império da indiferença, a atender aos anseios de mulheres ricas, como se somente elas tivessem o direito de amar, ainda que disso resultem sofridos abalos no amor de mães cuja miserabilidade lhes impõe sucumbir ante o retinir do vil metal.
Demais – cabe-nos indagar –, não haverá um vínculo espiritual entre aquelas mães e seus filhos? Aprendemos com a Doutrina Espírita que é normal ser a reencarnação cuidadosamente planejada no mundo espiritual, de forma a cumprir a finalidade redentora a que se destina. É então que a possibilidade da adoção, pré ou pós-natal, há de ser considerada, tendo em conta que a Providência conciliará as necessidades espirituais do reencarnante com as daqueles que o receberão. Mas, e se não houver um ajuste em níveis mais profundos, o que acontecerá? A criança será devolvida? Terá ela que ser submetida a um novo trauma, desta vez, de rejeição? Se nascer com deformações, o objeto da encomenda será recusado? ‘Ah! Este saiu aleijado! Assim eu não quero!’
Como se vê, a par das reflexões do referido articulista, há muitas e delicadas questões que se devem considerar, sobretudo porque se trata de um espírito empenhado em redimir-se de faltas cuja consciência o incomoda, a par de submisso a injunções afetivas, razão pela qual ele estará vivenciando a situação que merece, sem que, contudo, estejamos moralmente autorizados e negociar sentimentos.
Felipe Salomão
Bacharel em Ciências Sociais, diretor do Instituto de Divulgação Espírita de Franca
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