Solidariedade


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O homem é realmente um ‘bicho’ complexo. Consegue ser ao mesmo tempo muitas coisas, expressando sentimentos tão variados e divergentes que às vezes parecem incompatíveis com a própria essência humana. Por incrível que pareça, na mesma medida em que mata, agride e comete as mais bárbaras atrocidades, algumas delas inclusive em nome do amor, é também capaz de se entregar às mais belas atitudes humanas e solidárias.

Talvez essas demonstrações tão díspares de humores e atitudes sejam os múltiplos de cada um de nós, como poetizava o português Fernando Pessoa. Talvez seja apenas a resposta da natureza humana ao tipo de sociedade que viemos construindo através dos séculos.

Porém, independentemente da resposta que dermos a essas questões, algo que vem ocupando filósofos e pensadores há milênios, o fato é que não há explicação lógica para tudo que assistimos nos dias de hoje, pelo menos não dentro da lógica cartesiana linear a qual nos acostumamos nos últimos séculos.

Nesse sentido, é interessante refletir sobre a façanha alcançada pela pequena Ana Laura Alves, a garota que se tornou um símbolo da doação de medula, mas que, infelizmente, morreu na última terça-feira, aos 11 anos de idade. Dentro de um contexto urbano permeado cada vez mais pelo individualismo, violência, falta de diálogo e insegurança Ana e sua família conseguiram produzir uma ‘enxurrada’ de solidariedade em boa parte da população francana, levantando uma bandeira que ficará ‘tremulando’ para sempre na memória da cidade.

Graças à luta dessa garotinha e de sua família contra uma leucemia linfoide aguda que infelizmente a levou dessa vida, a conscientização em torno da necessidade das pessoas se cadastrarem para se transformarem em possíveis doadores e com isso conseguir salvar vidas cresceu extraordinariamente na cidade. O número de cadastros de doadores de medula óssea no Hemocentro de Franca aumentou em mais de cinco vezes, passando de uma média de 180 cadastros mensais para 956 registrados em março, quando a campanha atingiu seu auge.

Mas a reação não parou por aí. Para além dos cadastros para doação de medula, as doações de sangue nesse período também cresceram acentuadamente, aumentando em cerca de 50% em relação aos meses anteriores.

Tão forte foi a comoção gerada pelo problema de Ana Laura e pela dor de sua família que até mesmo a Câmara Municipal reagiu. Em primeiro lugar, em respeito ao falecimento da menina, silenciou por um minuto um espaço tão propício ao debate, ao ruído e às disputas humanas. Em segundo, aprovou um projeto de lei que institui na cidade a Lei Ana Laura, que consiste em uma campanha de conscientização e incentivo à doação de medula óssea.

A campanha deverá acontecer durante uma semana, sempre no final de setembro para coincidir com o aniversário de Ana. Com certeza, uma homenagem merecida para uma menina que apesar de ter conhecido tão pouco da vida, nos levou a refletir muito sobre ela.

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