A música clássica ecoando pelas paredes e ditando o ritmo que os bailarinos devem fazer os passos de dança, uma, duas, três, milhares de vezes, até que tudo esteja o mais próximo da perfeição. Vestígios da dureza dos ensaios podem ser vistos no chão e no collant, como suor, e sentidos pelos bailarinos e bailarinas através de dores musculares, que avisam aos seus donos que o dia foi proveitoso. E assim é a rotina de milhares de pessoas que, desde meados dos séculos XV e XVI, se dedicam ao ballet ou, nacionalmente falando, balé.
É praticamente impossível que exista alguém que, ao ouvir essa palavra, não saiba do que estamos falando. Mas, para garantir, vamos com a definição formal. “Dança artística teatral, executada por várias pessoas, na maioria mulheres, em que num cenário, com acompanhamento de música, se representam, com passos, gestos e mímica, um tema, história ou cena qualquer, quer como parte de uma peça teatral, como ópera ou opereta, quer como representação independente”, define o Dicionário Michaelis. Mas quando perguntamos para quem realmente se dedica ao balé qual seria sua definição, adjetivos como “mágico”, e “pura fantasia” vem à tona. Em alguns casos, essa definição se transforma em algo ainda mais abrangente. “É a minha vida”, define Camilla Miguel Mendes Gomes, enquanto a irmã completa. “Acabamos deixando o balé em primeiro plano. Ambas somos casadas e temos filhos, mas passamos a maior parte do tempo envolvidas com a dança”, acrescenta Raquel Miguel Mendes Prior. Ambas são as proprietárias, há 15 anos, de uma esc
ola de balé que leva seus nomes. Com experiência no cenário, elas relatam uma leve diferença do interesse dos jovens com a dança. “Todo pai e mãe sonha em ver sua filha dançando balé. Mas, com a diversidade de atividades que existem atualmente, as crianças passaram a ter mais opções e acabam escolhendo outras coisas”, explica Camilla. Apesar desse leque maior de opções, a dança ainda é um atrativo. “Por outro lado, fazer balé ficou bem mais barato, o que acabou tirando essa imagem de ‘elite’. Atualmente tudo está mais barato”, aponta Camilla. Segundo as proprietárias, cerca de 250 alunas praticam o balé na escola delas, mas é impossível saber o universo francano. “É muito difícil apontar quantas pessoas dançam aqui. Existem escolas públicas e particulares, que ensinam e isso sem contar os estúdios de dança. É muita gente”, afirma Raquel. “Isso é bom, mas também é ruim, pois em muitos casos, as bailarinas não possuem o aparato necessário para a prática”.
BENEFÍCIOS
Além de ser um exercício físico muito exigente com o corpo, o balé consegue provocar outros benefícios em quem se dedica. “Percebi que fiquei muito mais disciplinada e também melhorou minha memória”, relata a estudante Isadora André de Camargo Pacheco, 16, que pratica a dança desde que tinha seis anos. “Eu me sinto muito bem depois de uma aula ou de uma apresentação. É impossível por em palavras. Só quem faz pode sentir”.
“Não é uma simples atividade física. Ele também trabalha com todos os aspectos ligados a cultura, a musicalidade...”, ressalta Camilla. “A pessoa fica em contato direto com a arte clássica, ao invés de escutar somente funk, por exemplo”. Melhora na coordenação, elasticidade e equilíbrio também entram na lista.
SEM PRECONCEITO
Esse universo repleto de fantasias, violinos, pianos e collants apertados se contradiz com a imagem do machão imponente e violento que imperou durante os últimos séculos. Claro que isso acabou criando um preconceito tremendo com os bailarinos. “Comecei a dançar balé com 12 anos. Era pra eu ter começado com 4, mas meu pai não quis deixar”, lembra o professor de balé João Paulo Monteiro Dias, 21. “Eu via os ensaios que minha mãe fazia e queria fazer também, mas depois meu pai chegou e perguntou se era aquilo mesmo que queria. Respondi que sim e hoje ele me dá o maior apoio”. Para Raquel, a situação melhorou muito atualmente. “Antigamente precisávamos pagar para um bailarino de Ribeirão Preto se apresentar com as nossas meninas. Hoje temos 12 garotos que suprem nossas necessidades. Não é muito, mas comparado com antigamente está bem melhor.”
Entre idas e vindas, uma coisa é certa: o balé continuará encantando desde pais corujas até simples e desavisados espectadores.
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