O rapaz não devia ter mais que 25 anos. Seu jeans, camiseta e tênis puídos há muito não “viam” limpeza, bem como seu dono, que dormia sossegadamente à sombra de uma árvore no meio da calçada, em plena luz do dia. Ao lado, uma marmita remexida, um recipiente de cachaça, um vidro quebrado e bitucas de cigarro. Muitas bitucas. Esse cenário não é novidade para os moradores e comerciantes do entorno do pontilhão da Vila São Sebastião. Embaixo dele, vários pedintes e usuários de drogas fixaram moradia.
Ana Lúcia da Silva é vendedora no bairro e disse que, embora não entre em conflito com os usuários de droga, não se sente confortável e segura com a liberdade que eles possuem naquela área. “Estou sempre insegura. O tempo todos eles passam por aqui, pedem café. Eu não dou nem deixo entrar porque nunca se sabe o que eles podem fazer.”
Quem concorda com a vendedora é Celso Macedo, que possui uma lanchonete nos arredores do pontilhão. “Eles entram aqui dentro para pedir coisas e tenho que por para fora. Eles não tomam banho, entram aqui mal cheirosos, incomodam os clientes e me pedem dinheiro para comprar pedra [crack]. Pedem lanche para trocar em porta de biqueira”, disse o comerciante, que afirma usar de força física para afastar os usuários. “Às vezes eu tenho que ser agressivo para expulsá-los, senão não me respeitam.”
“BOA CONVIVÊNCIA”
A presença de usuários de drogas na Vila São Sebastião se tornou tão comum que o medo e a insegurança parecem não mais existir para todos e, de acordo com quem vive ali, um “código de ética” acaba por “proteger” a população e facilitar a vida de quem está à margem da sociedade. “Se você respeita eles [usuários de drogas], eles não mexem no que é seu. Há ‘meio que um código de ética’”, disse o comerciante Rogério Ferreira Lima.
Mas a presença de moradores de rua tende a provocar outro efeito: em cada semáforo das proximidades do pontilhão, há pedintes abordando os passantes; o que pode atrapalhar o fluxo do comércio. “Os que não roubam ficam no sinaleiro pedindo dinheiro. Acho um absurdo a população ajudar, porque está incentivado o menino a usar droga. Isso também pode prejudicar as vendas aqui. Conheço esse pessoal e comigo a maioria é pacífica, mas quem vem de fora costuma ficar com medo.”
Rita Castro é outra comerciante que aprendeu a lidar com a situação. Há anos trabalhando nos arredores, também estabeleceu com os usuários de drogas uma convivência, até certo ponto, tranquila. “Uma vez fomos roubados e um deles ajudou a achar os objetos levados. Quando passam por aqui, pedem café, água e também dinheiro, e já avisam que é para comprar drogas.”
ABRIGO
As moradias embaixo dos pontilhões não são uma exclusividade da Vila São Sebastião. A reportagem flagrou também, próximo ao Franca Shopping, camas improvisadas nos vãos escuros da passarela. Nas valetas, havia cachimbo improvisado com latinha de alumínio, camisinha usada, garrafas de bebidas alcoólicas e de alimentos, além de calçados e meias que não mais serviam para uso. No acostamento, pouco à frente do pontilhão, um homem cambaleava seguindo sem rumo quando, de repente, cruzou a rodovia, pendurou-se na grade de contenção e pulou para o lado contrário da pista. A cena e o perigo se tornaram comuns na área.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.