Para moradores, Abrigo ‘derrama’ viciados no bairro


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Frase pichada na parede de uma empresa na Vila Gosuen faz alusão ao consumo de drogas
Frase pichada na parede de uma empresa na Vila Gosuen faz alusão ao consumo de drogas

Corpos estirados no chão. E não é uma chacina. Segundo um empresário da avenida Flávio Rocha, na Vila Santa Terezinha, que pediu para ter sua identidade preservada, era essa a cena que ele encontrava à noite e no início da manhã, em frente à sua empresa. Usuários de crack e outras drogas ficavam espalhados pelo chão, dormindo. O sono era tão pesado que nem a presença de funcionários e o disparo do alarme os acordava.

Um funcionário, que dorme no local e vigia o barracão, também presenciou a mesma cena, repetidas vezes. “Era preciso sair pulando o pessoal deitado. Nós colocamos uma grade na entrada porque pelo menos eles não ficariam aqui dentro. Funcionou”, disse o empresário.

O relato é apenas de um ponto localizado, mas, segundo moradores das imediações das avenidas William Azzuz, Flávio Rocha e Dom Pedro a presença de usuários de drogas se espalha por aquela região. À noite, as ruas são tomadas por “zumbis”. Assim são chamados os dependentes, inclusive crianças, que transitam a todo momento pelas ruas e param apenas para comprar drogas nas “biqueiras” nos predinhos da avenida Dom Pedro e Vila Gosuen - no chamado “puxa-faca” - e para fumar crack em algum canto.

Um dos esconderijos que encontraram foi a entrada do barracão do empresário citado acima.

A denúncia é confirmada por imagens das câmeras de segurança do local. As cenas filmadas numa quarta-feira, dia 23 de janeiro, às 20h50, mostram cinco homens e um garoto, aparentando ter 12 anos, agachados próximo ao portão. O muro estreita a entrada para o local, formando uma espécie de funil. É um canto perfeito para eles. Lá conversam e fumam algum tipo de droga, às vezes compartilhando o isqueiro e o entorpecente. “Minha mulher ligou [para a polícia] um dia, aí eles pediram: passa lá em frente e vê a cor da roupa deles. Ah, não vou fazer isso não, eu respondi”, reclamou o empresário, que diz que a Polícia Militar não dá importância para esse tipo de ocorrência.

Uma moradora da região, que também pediu anonimato, disse que é um “inferno” passar pela avenida William Azzuz à noite. Inclusive, denunciou que os usuários de drogas estariam invadindo um terreno da Prefeitura, no canteiro central, para se esconder e usar entorpecentes. “Você só vê luzinha de isqueiro lá”, contou.

Do lado da avenida Dom Pedro, os moradores não aguentam mais a onda de furtos em casas do Residencial Nova Franca e Samel Park. Eles acusam os moradores de rua da região. “Enquanto não tiver leis que funcionem em nosso País, não adianta a gente espernear e reclamar. Nós denunciamos, mas a pessoa que dá o depoimento fica lá [na delegacia] e os que estão aprontando são liberados logo em seguida”, disse uma comerciante da região.

CULPADO?
A tese que a maioria dos moradores apresenta para a grande concentração de mendigos e usuários de drogas nesta região da cidade é a presença do Abrigo Provisório na avenida Dom Pedro. Segundo os reclamantes, os moradores de rua vão para o local, não permanecem muito tempo e encontram tráfico fácil nas imediações. Adair de Carvalho, administrador do Abrigo, diz que essa pode ser, sim, uma das hipóteses para a concentração de usuários naquela região. “Pode ajudar a atrai-los sim porque aqui eles tomam banho, comem. Mas o grande problema é o vício”, disse Carvalho.

De acordo com Carvalho, das 55 pessoas que são atendidas diariamente no local, de 30% a 40% são usuários de drogas. “Nós oferecemos casas de recuperação, mas a maioria não aceita”, completou ele.

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