“Abandona não que nóis adota (sic).” O recado foi pichado em uma das paredes do Clube dos Bagres, próximo a uma piscina desativada, do lado dividido pela avenida Antônio Barbosa Filho e separado do ginásio. E a filosofia foi colocada em prática. As instalações do clube símbolo de Franca, que completa 60 anos em setembro deste ano e abriga um ginásio tombado desde 2003 - que já foi templo do basquete francano -, foram invadidas por moradores de rua e usuários de entorpecentes. Vestiários, construções inacabadas e áreas cobertas viraram dormitórios. Tudo pode ser visto por quem passa pelas ruas General Carneiro e Osório, no Centro.
O local, alvo do vandalismo, foi tomado pela sujeira e por pichações. Os desenhos ostentam códigos que o cidadão comum desconhece. Como se demarcassem um território. Não se encontra um vidro que não esteja quebrado ou uma porta que não esteja arrombada. Cobertores, roupas, latas e até fezes estão espalhados pelo chão. Papelões demarcam as “camas” dos ocupantes. Segundo moradores e comerciantes da região, o movimento é intenso. À noite, contam eles, cerca de 40 pessoas podem ser vistas circulando pelo local. O espaço também serviria para práticas sexuais e manobras de skate.
O acesso não é difícil. Não há fiscalização. Às 12 horas da última quarta-feira, a reportagem foi ao local e entrou sem dificuldade. A entrada foi possível pela rua General Osório, em local aberto desde o começo da última reforma, próximo a algumas estátuas. Em um prédio perto do ginásio do clube, o Comércio encontrou um homem dormindo tranquilamente.
Atravessa-se a avenida Antônio Barbosa Filho por uma passarela vermelha que tem um pequeno portão, mas sem cadeado. Do outro lado, dois chinelos estavam à margem da piscina desativada. Mais ao fundo, um cômodo teve as portas metálicas arrombadas. Num canto, próximo a um jardim, marcas de fogo e carvão.
Na saída da reportagem, dois homens, aparentando serem moradores de rua, cruzaram a entrada da rua General Osório. Um rápido cumprimento marcou o curto contato. Um deles, com uma pequena bolsa, tomou o rumo do ginásio. O outro, com uma mochila prendendo papelões nas costas, e se dirigiu ao portão da passarela vermelha.
MEDO
Segundo vizinhos do tradicional clube, os andarilho são cordiais e cumprimentam quando passam. Às vezes, pedem dinheiro. Mas ninguém relata ter sido sido vítima de furto. “Eles não mexem com a gente, mas a noite ficamos com medo porque eles brigam entre eles. É sexo, é droga...”, disse um comerciante de 39 anos, que pediu para não ser identificado.
A chegada dos moradores de rua, de acordo com testemunhas, é entre as 19 e 22 horas. Pela manhã, a maioria vai embora. No último domingo, fios foram furtados e a rede elétrica do clube prejudicada. Uma fogueira foi feita do outro lado da avenida Antônio Barbosa, próxima às casas, o que alarmou os moradores.
Os funcionários não se atrevem a conversar com os mendigos. “Tem que tirar eles daí, rapaz. Eles cortaram os fios tudo (sic). A gente não pode ir lá. Esse povo é meio doido”, disse um auxiliar de serviços gerais, que trabalha no clube há mais de 20 anos, e que também prefere não ser identificado.
Um comerciante de 66 anos, da diretoria do Bagres, pede socorro à polícia. “Chama a polícia, mas eles nem vêm. Quando vêm, dão uma passadinha e vão embora”, reclamou.
Veja algumas imagens do local:
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