Ao que parece, grande parte das autoridades brasileiras, em todos os níveis, ainda não se deu conta do estrago que o vício em crack - e outras drogas ilícitas - está fazendo no seio da sociedade. De acordo com palavras do vereador e delegado Daniel Paulo Radaelli, um dos mais experientes da Polícia Civil francana, mais de 90% dos delitos e crimes registrados no município têm o tráfico e o consumo de entorpecentes como motivadores. Isto mostra que a violência - o que deve se repetir por todas as cidades brasileiras, grandes, médias ou pequenas - está estreitamente ligada à venda e consumo de drogas. O noticiário policial deixa isso bastante claro.
Diante deste quadro, urge uma ação mais drástica, já que os entorpecentes (notadamente o crack) estão drenando a vida de milhares de jovens que protagonizam situações inusitadas e violetas por conta da dependência. A entrevista de um jovem de apenas 20 anos, divulgada na manhã de ontem pelo programa Hora da Verdade da rádio Difusora, chama a atenção para o avanço pernicioso do vício no crack, com o qual nos deparamos nas ruas. O jovem reitera que o viciado não hesita em ir às últimas consequências para conseguir a droga. O rapaz disse claramente que gasta todo o dinheiro que lhe cai às mãos (inclusive na mendicância) para manter o vício e deixou explícito que não tem qualquer intenção de se tratar. Um retrato triste, cruel e estarrecedor que se multiplica em vários segmentos de jovens brasileiros - muitos ainda na pré-adolescência.
A necessidade de criação de centros de internação compulsória é premente. Mas acaba esbarrando nos administradores públicos e legisladores. Demagogicamente, defende-se o livre arbítrio dos viciados. Mas esses que assim procedem, se esquecem de que estão ignorando o bem estar dos demais cidadãos que pagam impostos e merecem ver seu dinheiro aplicado em ações preventivas, que seriam mais um caminho para reduzir a violência que tem confinado famílias inteiras atrás de muros altos e sistemas de segurança cada vez mais sofisticados. E caros.
A iniciativa do governo do Estado de São Paulo ao instituir a internação involuntária é um alento diante deste panorama sombrio. Mas o próprio governador Geraldo Alckmin admite que é muito difícil estender o programa para o Interior, já que é necessária uma estrutura muito grande da qual o Estado não dispõe. E, o que é pior, esbarra nas posições de prefeitos e vereadores contrários à ideia. Entretanto, a situação é por demais grave para que argumentos demagógicos e hipócritas impeçam a internação involuntária ou compulsória. Hoje, no Brasil, o viciado precisa querer ser internado em centros de recuperação, para que tal suceda. Porém, como se tem visto ao longo dos anos, esta metodologia não funciona. Acreditamos que já passa da hora de deixar as falácias pseudo-humanistas de lado e partir para a ação. Porque se deixarmos a situação perdurar, poderemos entrar num caminho sem volta. A internação pode não representar panaceia para todos. Mas pode ser salvadora para muitos e isso, por si só, já a recomenda como medida terapêutica.
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