Vazio


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Durante a Semana Santa vivenciamos a morte e ressurreição de Jesus Cristo. Narram as escrituras que, após sua morte, foi ele colocado no sepulcro. No outro dia, pela manhã, mulheres foram visitar e encontraram a pedra removida. O corpo não estava lá, o sepulcro estava vazio.

As mulheres contaram aos discípulos de Jesus e eles, indo até o sepulcro, concluíram que elas falaram a verdade. Várias lições derivam disso. Jesus valorizou a mulher quando ela era totalmente desconsiderada na, e pela sociedade. O primeiro milagre dele, transformando água em vinho, deu-se por força da intervenção de sua mãe, Maria.

Em outra ocasião, Jesus falou com uma samaritana nas proximidades de um poço e pediu-lhe água. Sendo judeu, ele não podia conversar com uma desconhecida, muito menos com uma samaritana. Jesus também curou uma mulher que sofria de hemorragia havia vários anos em época na qual toda mulher menstruada, ou com hemorragia, era considerada impura, não podia sair de casa e nem tocar alguém, que também passaria a ser impuro.

Houve também o caso de mulher pega em adultério, cuja pena era o apedrejamento. Jesus a livrou ao afirmar que ‘quem não tivesse pecado, que atirasse a primeira pedra’.

A palavra da mulher não tinha qualquer valor. Jesus, no entanto, escolheu Maria Madalena para primeiro aparecer após sua ressurreição. Ela, antes de conhecê-lo, era prostituta. O sepulcro vazio, além de remeter à ressurreição, também nos remete a uma análise pessoal, já que todo humano, em razão de sua incompletude, sente o vazio que é inerente a condição humana. Somente quando há o vazio (a falta) pode-se preencher.

A humanidade não tem valorizado os momentos de vazio interior, para reflexão. Atualmente, o vazio é considerado algo ruim, negativo e que deve ser refutado a todo custo. Remete-nos a nós mesmos e nós, muitas vezes, não suportamos um encontro conosco. Ficamos tristes, inseguros, sentimos medo. A solução mágica é tomar ansiolíticos e enriquecer as empresas farmacêuticas. A humanidade contemporânea só valoriza o prazer.

O homem não é somente racional, e suas ações e comportamento não são definidos apenas por motivos racionais, mas também, por emoções. Jesus, ao deixar o sepulcro vazio, permitiu que seus discípulos sentissem sua ausência, e, pela ausência, pudessem refletir sobre o ele lhes disse, e que não entenderam no momento em que ouviram.

Com o vazio entenderam, então, quando Jesus afirmou que reconstruiria o templo em três dias, ou seja, seu corpo físico não mais estaria com eles, mas o corpo glorioso, espiritual, estaria eternamente.

Concluímos que o ser humano tem necessidade interior de completude, que passa pelo vazio e que pode ser preenchido com Jesus; porém, como o ser humano é dotado de liberdade, pode escolher como preencher diferente, com bebida, droga, remédios, trabalho, dinheiro, viagens etc. Uma coisa é certa: só no vazio há espaço para o novo, para recomeço e para esperança. O ser humano não basta a si mesmo.

Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário

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