A tarde chuvosa do dia 6 de março, por pouco, não foi a última da pequena Vitória da Silva Rosa, bebê de apenas seis meses. Ela é filha do catador de recicláveis Luiz Antônio Rosa, 50, e da dona de casa Elisângela da Silva Rosa, 30, que moram no Jardim Paulista. A mulher teve complicações na gravidez e Vitória nasceu de oito meses, em agosto do ano passado. Ela sofre de pneumonia crônica e outras problemas respiratórios. Precisa da ajuda de um aparelho para conseguir respirar. “Minha menina tem muita infecção e hoje [dia 6] a febre subiu demais. Ela não estava mais respirando. Fiquei desesperada”, disse Elisângela.
Preocupada com a filha, às 18h18, a dona de casa discou 192 e longe dali, na alameda Vicente Leporace, no Parque Pinhais, uma voz feminina respondeu: “Samu Franca. Boa noite”. Enquanto explicava o caso da filha, dois socorristas já se dirigiam até uma das viaturas do Samu.
O Comércio estava na central de atendimento do Samu e acompanhou todo o trabalho da equipe formada por homens e mulheres que dedicam suas vidas para salvar outras pessoas.
Enquanto o condutor-socorrista Cláudio Faria Bedo, 41, checava o endereço informado, a paramédica Mirele Souza, 32, organizava os equipamentos na viatura. “Assim que recebemos o chamado, temos dez minutos para chegar até a vítima [esse é o tempo recomendado pelo Ministério da Saúde]”, disse Mirele, conferindo o funcionamento do respirador da ambulância.
O horário e as condições climáticas não ajudavam. Chovia granizo e vários pontos da cidade estavam com o trânsito congestionado por causa do horário de saída das fábricas. Apesar de todas as dificuldades, às 18h28, a ambulância parou na rua Vital Brasil e os socorristas chamaram no portão. Um homem atendeu. “Graças a Deus que eles chegaram, minha mulher não sabia mais o que fazer”, disse o pai da criança.
Apressados, os dois socorristas entraram na casa. Na sala, uma criança franzina e com tubos plásticos no nariz chorava, amparada por sua mãe. Enquanto o socorrista Cláudio fazia algumas perguntas sobre medicação usada e quanto tempo a criança ficou sem respirar, a paramédica Mirele consultava Vitória. “Ela está com um quadro de dispnéia [dificuldade extrema de respiração] e precisamos ir para o hospital para que ela receba atendimento especializado”, avisou Mirele, com a bebê nos braços.
Ao entrar na viatura, os socorristas ligaram para o médico plantonista na base do Samu. Por telefone, orientou para onde a criança deveria ser levada. Enquanto isso, a bebê recebeu ajuda para respirar, com ventilação artificial dentro da ambulância.
Às 18h44, o médico indicou que Vitória seria levada até o Pronto-Socorro Infantil. Em 13 minutos, o bebê estava na ala de emergência do PS sendo atendida pelo pediatra Márcio Batista. Mirele explicou o quadro clínico da criança a ele. Vitória ficou internada. Às 18h59, Cláudio e Mirele voltam para a rua para atender outras vítimas.
A viatura mal teve tempo de esfriar o motor e já precisou sair novamente. Desta vez, a solicitação partiu da Polícia Militar que estava com dificuldades para conter um rapaz de 26 anos com problemas psiquiátricos. Segundo familiares, o jovem passou a consumir álcool e a ter surtos psicóticos. Devido a seu estado agressivo, ele precisou ser contido dentro da viatura do Samu e ser levado para uma ala especial do Pronto-Socorro “Doutor Álvaro Azzuz”.
Na mesma noite do chuvoso 6 de março, Aline Giovanela sentiu fortes contrações. Ela está grávida e precisou ser socorrida pela equipe do Samu até o hospital (veja fotos acima).
BALANÇO
Essas ocorrências representam apenas uma parte da rotina do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgências) em Franca. O serviço completará um ano de operação na cidade em maio. Em janeiro deste ano, a unidade fez 725 atendimentos, uma média de 24 por dia.
A coordenadora geral do Samu, Giane Stefani, disse que o principal desafio da equipe é educar a população para que ela saiba quando acionar o Samu. “O povo ainda é muito leigo sobre o nosso trabalho que é muito novo. Pensam que é só chamar a ambulância, que temos obrigação de atender. Prefiro ter a ambulância parada e pronta para uma chamada urgente a atender à uma ‘queda de cabelo’”, disse Giane, fazendo referência aos francanos que ligam para o 192 sem necessidade.
Entre os atendimentos realizados pelo Samu estão a prestação de socorro em acidentes de trânsito, partos, agressões, problemas cardiorrespiratórios e outros casos em que há risco de vida iminente.
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