A retomada do desenvolvimento com o aquecimento da economia brasileira na última década não foi acompanhada pelo salário pago ao trabalhador. Pelo menos não na indústria calçadista de Franca. É o que mostra um estudo feito pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos). Enquanto o salário mínimo no País subiu 239% nos últimos dez anos, o piso salarial pago aos sapateiros sofreu um reajuste de apenas 139%. Se em 2003 o piso da categoria de R$ 340 equivalia a quase dois (1,7) salários mínimos (que era de R$ 200), hoje ele representa um pouco mais que os R$ 678 (1,2) oficiais, uma redução equivalente a 29,4%. O piso atual é R$ 815,37 (veja quadro nesta página).
Para o técnico do Dieese, Rogério Machado Limonti, responsável pelo estudo, os números são uma tradução da realidade vivida pelos sapateiros da cidade. “De fato, o piso salarial da classe trabalhadora em Franca, especialmente na indústria calçadista, não cresceu na mesma proporção que o salário mínimo, o que traz como consequência a redução do poder de compra das famílias.”
Um dos fatores que explicam o achatamento salarial dos sapateiros é a alta rotatividade do trabalhador da indústria. “Analisamos os dados da Rais [Relação Anual de Informações Sociais] e percebemos que Franca tem quase o dobro do índice de rotatividade nacional. Enquanto na cidade a taxa de rotatividade oscilou entre 80,5% e 92,4% de 2009 a 2011; no País, a média na indústria foi de 49,8% em 2009.”
A rotatividade representa a entrada e saída de trabalhadores de uma mesma vaga durante o período de um ano. “As indústrias usam a rotatividade para diminuir custos. Demitem um trabalhador para contratar outro por um salário mais barato. Essa ação é muito presente no setor calçadista”, disse Rogério Limonti.
REPRESENTANTE
Para o presidente do Sindicato dos Sapateiros de Franca, Fábio Cândido, os dados apontados pelo Dieese mostram a defasagem sofrida pela categoria ao longo dos últimos anos. “Começamos a atuar em 2011 e temos conquistado reajustes acima da inflação. Foram 12% no ano passado e 9% neste ano, mas ainda assim temos um piso baixíssimo apesar de sermos a categoria mais numerosa da cidade.” O setor calçadista francano emprega quase 30 mil pessoas.
O sindicalista atribui a defasagem à intransigência dos empresários. “É muito difícil negociar com eles. Eles afirmam que não tem como pagar mais e não aceitam discutir. Só pensam no lucro deles enquanto nosso piso é miserável. Não tem como sobreviver com um salário desses.”
A família Jonas, moradora do Jardim Aeroporto II, sente na pele o sufoco para conseguir pagar todas as contas com uma renda tão baixa. O casal e os dois filhos sobrevivem com R$ 1.800 por mês. José Jonas, 62, é frentista, mas está afastado por doença e depende de benefício. A mulher dele, Aparecida de Fátima Jonas, 47, é coladeira e trabalha em uma banca de pesponto. Ela ganha R$ 820 (leia mais nesta página).
FORMAÇÃO
Outro dado que tem relação direta com o achatamento do piso salarial dos sapateiros é o fato da indústria calçadista não exigir um grau elevado de qualificação, já que sua produção é basicamente manufaturada. “Com isso, mesmo a melhora do nível de instrução dos trabalhadores, não fez com que os salários subissem. Ao invés de remunerar melhor o trabalhador com formação, a indústria prefere dispensá-lo ou perdê-lo para outros setores e contratar outro pelo mesmo salário base.”
O estudo do Dieese mostra que, nos últimos anos, o nível de escolaridade dos trabalhadores avançou. “Entre 2006 e 2011, houve um aumento de 75,7% dos trabalhadores com ensino médio completo e de 26,2% dos com ensino superior. Mas sem conseguir ganhar mais, boa parte tem migrado para o comércio ou a prestação de serviços.”
O presidente do Sindicato dos Sapateiros, Fábio Cândido, considera difícil reverter esse quadro. “Foram 20 anos de perdas acumuladas. Não acho que conseguimos repor isso.”
O presidente do Sindifranca (Sindicato das Indústrias de Calçados de Franca), José Carlos Brigagão, foi procurado para comentar o assunto na quinta-feira, mas sua assessoria informou que havia viajado. Ele deve se pronunciar amanhã.
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