Educadora cobra professores mais estimulados e capacitados


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Leny Pimenta, diretora do Colégio Monteiro Lobato - COC, diz que é preciso fortalecer as escolas públicas
Leny Pimenta, diretora do Colégio Monteiro Lobato - COC, diz que é preciso fortalecer as escolas públicas

No fundo do quintal da casa em que morava Leny André Pimenta havia uma laranjeira. Com cinco anos de idade, a menina sempre subia nos galhos mais altos para buscar os melhores frutos. Não se contentava com menos, nunca estava satisfeita com qualquer situação. Desde cedo, apaixonou-se pelas histórias de Monteiro Lobato. Sempre teve a curiosidade de entender o que está por trás de uma máquina e como desenvolver tecnologias.

O tempo passou e Leny se transformou em uma das profissionais mais respeitadas da área de educação em Franca. Construiu uma escola e a batizou com o nome do escritor que a encantou na infância. Ao longo de 40 anos de dedicação à profissão, seus conhecimentos ultrapassaram fronteiras. Ela fez especializações no Brasil e no exterior. Tem formação em educação, pedagogia, ciências sociais políticas e material didático e linguagem. Integra o Observatório da Educação (ligado ao MEC) e faz mestrado em linguística. Tem artigos publicados em jornais e revistas, participou de estudos e trabalhos em mais de 20 países. É também co-autora da revista Lego Zoom, da Lego Education, para desenvolvimento da educação tecnológica na área de ciência e tecnologia. A publicação é usada por cerca de 300 mil alunos no Brasil.

Leny Pimenta é diretora-proprietária do Colégio Monteiro Lobato - COC Franca, onde estudam 1,2 mil alunos. Três filhos dela atuam nos setor administrativo e pedagógico. “A família está toda envolvida com a educação. Eles beberam da água benta da careta.”

A educadora recebeu o Comércio e durante quase duas horas falou de sua paixão pela educação, analisou o programa de ensino da rede pública, criticou o sistema de cotas e comentou o elevado índice de violência nas escolas. Afirmou que está faltando limites.

Leny afirmou que hoje os professores assumiram vários papéis, de psicólogos, pais, amigos e isso desviou o foco principal que é a educação. Ela reforçou ainda a necessidade do comprometimento com os estudos e deu a receita para o desenvolvimento educacional do País. “Se o Brasil quer crescer em termos de pesquisa, de desenvolvimento, de novas tecnologias é preciso implantar no ensino fundamental a educação para a tecnologia.”

Comércio da Franca - Como começou esta história de 40 anos de dedicação à educação?
Leny Pimenta -
Desde menina, sempre tive uma paixão por educar, por tentar descobrir as coisas e de uma forma que eu pudesse cooperar. Começou muito com Monteiro Lobato. Tinha seis anos e já ouvia as histórias dele. Tudo isto ficou no imaginário, o que alimentou o desejo de vir a ser professora. Naquela época, década de 60, 70, havia um status em ser normalista. Era um desejo também do meu pai que eu viesse a ser professora. Toda esta combinação entre a literatura, este imaginário e o desejo da minha família me fizeram percorrer este caminho.

Comércio - Ainda jovem a senhora montou uma escola que depois passou para o sistema COC. Como foi essa transformação?
Leny -
Antes da mudança, ainda na década de 80, já estava muito preocupada em relação a um novo modelo de educação. Era preciso um conteúdo que desse conta de contextualizar as áreas, não entre um tema gerador, mas colocando as redes de conexão entre uma área e outra, que seria o processo que hoje a gente nomearia como interdisciplinaridade. Comecei a desenvolver com os professores uma estrutura de conteúdo e começamos a escrever. Naquela época, a editora COC se interessou e comprou este material. Comecei a trabalhar com eles em 2002 e passamos a escrever uma proposta diferenciada, calcada nos eixos temáticos. Hoje, em todos os cursos, temos 1,2 mil alunos.

Comércio - A senhora também desenvolve projetos em parceria com a Lego [segmento de brinquedos]. O que pode falar a respeito?
Leny -
Quando era criança, com cinco, seis anos, no fundo da minha casa havia uma laranjeira. Gostava muito de subir nos galhos mais altos e buscar as laranjas mais apetitosas. Hoje, compreendo este simbolismo: nunca estive satisfeita com qualquer situação. O ponto de insatisfação, que não leva à melancolia, nem à angústia, mas que é uma insatisfação que me impulsiona, é que me fez buscar novas possibilidades. Aquela estrutura irrequieta da Emília sempre aflorou em meu pensamento. Assim, fui buscar novas possibilidades. Sempre tive a curiosidade de entender os mecanismos, o que está por trás de uma máquina, como desenvolver tecnologias. Foi assim que descobri que na Lego havia uma área, a Lego Education, que estava começando e não tinha o material didático específico para o desenvolvimento de educação para a tecnologia. Eu me inscrevi para a coordenação deste projeto e fui aprovada. Começamos o desenvolvimento com outros dois autores destas revistas nas áreas de ciência e tecnologia. Iniciamos este trabalho há 15 anos. Hoje, as revistas já estão traduzidas em inglês e espanhol. No Brasil, temos em torno 300 mil alunos utilizando este material, que vem com os kits da Lego. Criamos um material didático para dar suporte e desenvolver um pensamento mais voltado para a criação de novas tecnologias. E se o Brasil quer crescer em termos de pesquisa, de desenvolvimento de novas tecnologias, é preciso implantar no ensino fundamental a educação para a tecnologia.

Comércio - Como a senhora avalia o programa da rede pública?
Leny -
Existe um bom programa. A gente analisa o material do mercado editorial. Os livros que são enviados hoje para a rede pública são muito bons. O que vejo é que falta estímulo ao professor. É um professor que merece uma consideração maior por parte de órgãos governamentais, além de uma formação continuada mais efetiva, mais prática. É preciso valorizar o profissional. O discurso do mestre hoje vem colocando o professor como vocação. E por trás desta estrutura de vocação, tem aquela coisa do mártir, de que não tem problema se ele ficar desempregado ou ficar sem receber salário. Não é isso. Professor não é só vocação. É profissão. As propostas do Estado são boas, mas faltam os ajustes à posição que o profissional deve ocupar na educação.

Comércio - As estruturas físicas das escolas são inadequadas. Isso desestimula os alunos? Leny - É claro que todo ambiente influencia. Mas o que predomina é o distanciamento entre o discurso institucional e o que circula no cotidiano. As práticas de leitura e escrita que veiculam no cotidiano deveriam ser um aporte para o desenvolvimento dentro da sala de aula. As linguagens estão truncadas. Nem sempre o que o professor está colocando é de interesse do aluno. Essa questão de estabelecer uma via dialética entre professor e aluno deveria ser o primordial. Poderia ter um ambiente diferenciado. Gosto muito da Távola Redonda, do rei Artur, em que todos olham uns para os outros e tem o diálogo. O modelo atual não permite diálogo aberto. Deveria ter um diálogo interativo para promover a aprendizagem.

Comércio - Como avalia o alto índice de violência nas escolas?
Leny -
Tem toda uma conjuntura social. Não é só na escola. Hoje a valorização à vida é muito pequena. Se mata apenas para roubar um tênis. A marca hoje é mais que o ser humano. O objeto se humaniza enquanto o ser humano se desumaniza. É o contrário. É claro que a escola, que é um núcleo de convivência, onde há maior interatividade, onde se permite colocar situações, é onde se aflora mais a violência. Infelizmente, a violência está institucionalizada. A irritabilidade domina o ser humano. Qualquer coisa é motivo para discutir. Um exemplo é o trânsito onde ninguém tolera nada. Não existe diálogo.

Comércio - Faltam limites?
Leny -
Está faltando limite sim. Toda essa estrutura que vem com a modernização da psicologia e novas tendências. Houve equívocos. Mas o limite precisa ser considerado. Os princípios éticos não estão demarcados. Está liberado. Há um descompromisso em relação à educação de berço. Os pais muitas vezes dizem que não quer que o filho sofra. Desde quando aprender não é sofrer? Para desenvolver um relatório, um trabalho ou uma resenha, você sofre. Porque é preciso elaborar todo um conceito. Tem que buscar uma estrutura teórica para justificar aquele pensamento. Quem diz que conhecer é fácil? Não é não. Todo mundo quer as facilidades. Todos nós queremos que nossos filhos tenham uma vida feliz. Mas nunca vi uma pessoa ser feliz sem dinheiro no bolso e de barriga vazia.

Comércio - A senhora disse que decidiu ser professora pelo status que a profissão tinha. A figura de uma autoridade de respeito está se perdendo?
Leny -
Antes a gente tinha um certo receio, não apenas pela autoridade moral que o professor tinha, mas pelo autoritarismo que também imperava. O aluno tinha que ficar quieto. Não podia falar nada. Hoje, continua o silenciamento ainda. O aluno continua sendo oprimido porque ainda tem um discurso autoritário que veicula na educação. Porém, o professor perdeu aquilo que chamamos de autoridade moral. Houve uma desvalorização da profissão. Porque ele passou a assumir vários papéis que não eram especificamente do profissional professor. Ele assume o papel de terapeuta, de psicólogo, de pai e mãe, de amigo e de tia. Houve uma subdivisão de muitos papéis. E o papel principal que era do profissional da educação foi perdido.

Comércio - Qual a opinião da senhora sobre a implantação do sistema de cotas?
Leny -
Esse é um assunto bastante polêmico. Vou falar do lugar onde circulo, que é o da educação. Quando se fala de inclusão social, de dar oportunidades para que o aluno da escola pública tenha acesso ao conhecimento acadêmico, acho viável. Porém, a forma como é feito isso é que acho um pouco perversa. Porque vai retirar do ser a dignidade de conquistar aquela posição e um lugar no meio acadêmico. O que deveria existir é uma efetiva ação de qualidade no ensino fundamental que realmente desse condições aos jovens. O que precisa é fortalecer as escolas públicas. Melhorar a qualidade do ensino fundamental das escolas públicas é que deveria ser uma prioridade no ensino infantil e principalmente no fundamental I, que é base. É estrutural.

Comércio - E sobre o programa nacional de alfabetização na idade certa?
Leny -
É outra questão que precisa ser melhor elaborada. Mudam se os termos. Por exemplo, o ensino passou a ser chamado de fundamental, porém não muda a estrutura interna. Adiantam-se as coisas, mas é preciso verificar até que ponto a criança está pronta para receber determinados conceitos que são fundamentais nesta faixa etária entre o estágio II [pré-escola e primeiro ano]. Muito mais fundamental do que saber escrever é saber qual a função social daquela escrita. Para que serve aquele suporte escrito que está ali.

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