Amar é...


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Amar é... Nos anos 80 houve uma febre de figurinhas, e a série ‘amar é...’ era uma. As figurinhas, os bonequinhos e os cenários eram engraçadinhos e significavam mensagens românticas.

Era a manifestação própria do amor romântico. Só para recordar, ‘amar é... não cansar de te mimar’, ‘...de receber mensagens românticas’, ‘...esse sentimento que é um tesouro’, ‘colar um no outro’, ‘...criar um universo de mensagens secretas’, ‘...se unir no calor de uma canção’, ‘...viver uma sensação de segurança’, ‘...sentir a emoção de correr ao telefone’, ‘...ter muito cuidado na hora de censurar’, ...fazer o café quando acordar antes dele’, ‘...correr junto em direção ao mesmo ponto’ etc.

Quem não deseja amor? O amor move o ser humano. No entanto, o amor romântico, tal como é descrito nos contos de fadas, na realidade é bem complexo e exige dos amantes invenção diária para manter.

Com o passar do tempo, o amor romântico (imaginário) torna-se maduro (real), e é ai que a coisa pega. Há quem ame sem ser correspondido.

Platão, filósofo e pensador grego, falou sobre isso, e, falando deu origem à expressão amor platônico. ‘Não há ninguém, mesmo sem cultura, que não se torne poeta quando o amor toma conta dele’.’

Só pelo amor o homem se realiza plenamente. O amor é uma força, uma energia, que se manifesta na alma como um sentimento de lembrança de algo que a alma já teve, mas perdeu. Quem ama extremamente, deixa de viver em si e vive no que ama. O amor é a busca do todo.’

Uma coisa é certa: amor é constituinte da existência humana e falar dele nos torna vulneráveis porque revela experiências particulares. Amor pode ser considerado como eco, fragmentos de lembranças do amor infantil. Portanto, o amor seria uma forma de repetição de afeto e de sexualidade.

Por sermos seres incompletos, ao buscarmos o amor que supomos, o outro pode nos dar, na verdade buscamos a nós mesmos no outro. O outro serve como espelho a nos refletir. Amar, então, é dar o que não se tem a quem não o é, segundo dizia Lacan.

Acredito que buscamos, no amor, parte perdida de nós mesmos, já que quem ama, o amante, não sabe dizer o que o outro tem e esse, o amado, também não sabe porque é amado por ignorar também o que ele tem. Só há espaço para amor porque existe falta. E só há desejo de amar em razão dessa falta. Já que não podemos suprir sozinhos as nossas faltas, os nossos desejos, buscamos no outro, que também é desejoso e faltante, Em outras palavras, somos dois incompletos, buscando a completude.

Amar é extremamente saudável, mas precisamos ter ciência de que buscamos no outro algo que ele também busca em nós. Esse mecanismo de troca, ou de busca e encontro, também é marcado por desencontros e rupturas, possíveis geradores das brigas. Entender que não sou perfeito e que o outro também não é, mas que ambos buscamos a realização do desejo comum de ser amado, pode ajudar a evitar conflitos pessoais e judiciais.

Lidar com a angústia é sempre doloroso, porém, se bem vivenciada, pode permitir amadurecimento capaz de valorizar e fazer vivenciar situações prazerosas da vida, como amar e ser amado.

Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário

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